‘Vamos fazer um canal de arte?’

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Rogério Gallo, diretor do canal Arte 1

“Vamos fazer um canal de arte?” - A pergunta em tom afirmativo do presidente do Grupo Bandeirantes, Johnny Saad, foi respondida por Rogério Gallo: topo!
Por Alex Solnik e Camilla Schahin | Fotos Fon Nekrasius

Num ambiente de não mais de 200 metros quadrados localizado dentro das amplas instalações da TV Bandeirantes, em São Paulo, funciona um novo modelo de canal de televisão. O formato lembra uma jovem agência de publicidade ou redação de revista – se não houvesse, numa ponta, uma sala com ilhas de edição, e na outra, um cenário para gravação de “cabeças”. S.A.X. visitou seus bastidores para conversar com o criador, Rogério Gallo.

Quando o Arte 1 começou?
Nós começamos esse projeto há mais de dois anos. Por ele ter sido lançado agora, há quatro meses mais ou menos, nesse cenário da nova lei da TV por assinatura, muita gente acha que foi um projeto de oportunidade. Não. É um sonho antigo da TV Bandeirantes e do Johnny Saad ter um canal por assinatura focado em arte.

De quem partiu a ideia?
O Johnny Saad me propôs esse desafio de criar um canal do zero absoluto, um canal só de arte. Não existia outro canal assim no Brasil e muito poucos no mundo com esse posicionamento radical de ser cem por cento focado em arte. A ideia e a grande preocupação era que ele fosse acessível para o grande público. Eu tinha muito medo de ser rotulado como elitista, que o canal fosse percebido como um canal para iniciados. E não é essa a ideia. Claro, até por falta de opção, os iniciados tendem a vir para o Arte 1. Mas o desafio é trazer um público novo.

Por onde você começou a criar o canal?
O grande mote inicial foi o Johnny Saad virar e falar: vamos fazer um canal de arte? Aí eu falei: vamos! Você sabe, o que eu mais amo na vida é fazer canais. Então, a partir disso, desenvolvi tudo.

Quem deu o nome, como surgiu?
O nome eu dei. O nome surgiu… não sei se sou capaz de lembrar se o nome surgiu assim de cara. Mas quando você pergunta por onde começou, eu diria que foi pelo posicionamento. O grande lance desse projeto foi ter um posicionamento muito claro. A gente em pouco tempo já mostrou a que veio: é um canal que tem essa proposta radical de ser totalmente focado em arte. O começo foi não fazer muita concessão, por exemplo, criar um canal que tem arte também. Não, é só arte.
Mas criar um canal que fosse um canal de variedades sobre arte. Um canal que tenha música, filmes, documentários, jornalismo cultural e suas subdivisões: cinema de arte, cinema clássico, música brasileira, ópera, concertos. Definido o conceito, a partir disso fui construindo uma grade. Porque eu não consigo trabalhar sem visualizar uma grade. Talvez a grade tenha nascido antes do nome…

O nome Arte 1 significa que mais tarde poderá haver Arte 2 ou 3?
Não necessariamente. O Arte 1 quer dizer o primeiro canal de arte. Mas é possível que no futuro criemos o 2 ou 3, quem sabe? Então, voltando à grade: agora eu olho essa que está no ar e a da primeira apresentação que fiz ao Johnny e era essa grade. Se mudou dez por cento foi muito!

O canal demorou um certo tempo para ir ao ar. Por que?
A gente estava encontrando dificuldades para distribuir o canal. Agora parece estranho dizer isso, mas é uma coisa interessante. A receptividade das operadoras era muito grande quando eu apresentava o canal, mas a vaga no lineup era difícil de sair. Alegavam problemas de satélite, não sei que mais. Em alguns momentos cheguei a achar que a gente não ia conseguir distribuir o canal, pelo menos não de maneira ampla. Talvez a gente conseguisse uma distribuição à la carte, que era um coisa que eu não queria, não queria que as pessoas tivessem que pagar a mais para ver o canal, eu queria que o Arte 1 fizesse parte dos pacotes básicos das operadoras. Quando surgiu o cenário da nova lei, a gente segurou o projeto e quando ela foi aprovada e as respectivas instruções normativas, quando isso ficou claro, eu percebi que a gente tinha uma oportunidade. Eu modifiquei todo o business plan para que o canal nascesse dentro dos parâmetros da nova lei, ou seja, que se tornasse “um canal brasileiro de espaço qualificado”. Segundo a lei, 50% do horário nobre, que vai das 18h00 às 24h00, também definido pela lei, tem que ter produção nacional. O que é muito. Desses 50% metade a gente produz – três programas diários – e a outra metade é fornecida por produtoras independentes, o que é uma exigência da nova lei. O grande objetivo da lei é fomentar o mercado da produção independente. O nosso grupo é produtor, eu tenho característica de criação, mas a gente não podia começar produzindo tanto. Isso tudo encareceu o canal, porque teríamos que produzir e o preço do conteúdo nacional, exigido pela nova lei, subiu muito. Quando eu comecei, há dois anos, tinha coisas que eu deixei combinadas por cinco que acabaram custando vinte e cinco. Por quê? Porque a lei gerou uma corrida dos canais aos estoques brasileiros. E o estoque brasileiro não é como o estoque dos Estados Unidos, não é um estoque sem fundo, é um estoque com fundo bem raso. Canais que jamais comprariam determinados conteúdos em situação normal foram às compras. Quando eu cheguei para comprar ou já tinham comprado ou havia três pessoas concorrendo comigo.

Quer dizer que a lei foi fundamental para vocês?
A lei também criou cotas para as operadoras, que são obrigadas a cada “x” canais, ter um canal brasileiro. Agora são seis canais, mas o número deve diminuir. Isso abriu uma grande porta para a gente. Em vez de ficar procurando, a gente passou a ser procurado. E o que aconteceu? O businnes plan, que previa no primeiro ano um mínimo de um milhão e um máximo de dois milhões de assinantes foi superado já em três meses: nós já estamos com 10 milhões de assinantes. Estamos em todas as operadoras e nos pacotes básicos delas. Por isso temos essa base de 10 milhões.

Por ser cultural, o canal tem algum benefício, algo no estilo Lei Rouanet?
Não, a gente não tem benefícios, o canal foi feito com 100% de recursos da Band. Nós temos duas fontes de receita: assinantes e publicidade. Nenhuma fecha a conta sozinha, precisamos das duas.

As operadoras remuneram vocês?
Não é que a gente esteja recebendo um dinheiro enorme por esses assinantes. Nosso interesse era criar uma base.
Se a gente quisesse receber muito por assinante, talvez a gente tivesse uma base menor. O que interessava era ter uma base maior. Se eu entro numa agência de publicidade e digo que tenho 10 milhões de assinantes a reação é diferente da que se eu digo que tenho 500 mil. Isso foi um pulo do gato. A gente ainda não tem números de audiência, estamos no ar há pouco tempo, mas estar presente em 10 milhões de lares é bem visto pelas agências.

Quanto vocês recebem por assinante?
O contrato é muito complexo, eu diria que a gente recebe um tanto por assinante que herda e um tanto por assinante que agrega, que é chamado pelas operadoras de “entrante”.

Com quantas pessoas você trabalha?
Trinta pessoas fazem o canal. É uma equipe bem enxuta. Esta sala é um espaço que não existia, um espaço amplo onde todo mundo está junto. É uma redação. Tem as ilhas de edição, o comercial, porque eu queria o comercial vivendo o dia do canal, e tem o cenário agora para gravar as “cabeças”. Isso é o Arte 1, uma bolha autossuficiente. Autossuficiente em termos, é claro. O equipamento é nosso, as câmeras, as ilhas, mas o administrativo eu não tenho, a engenharia é a da Band, o jurídico é da Band. Fora isso, tudo está aqui, a produção de conteúdo, a edição, o comercial, as aquisições.

Quanto conteúdo você produz?
Os três programas que a gente produz apresentam de 12 a 15 matérias por semana. E são matérias diferenciadas, com padrão estético determinado, texto, não é jornalismo diário, tem outra cara. São 45 matérias por semana, mais de 200 por mês.

É uma conta alta?
É uma conta alta. Mas temos como abatêla. Como o Brasil desperta hoje grande interesse no mundo, nós vamos embalar as nossas matérias sobre arte brasileira e oferecer ao mercado internacional. Vamos embalar os programas para exportação. O programa Estilo Arte 1 vai virar Brazilian Style; o Movimento vai virar Brazilian Arte e assim por diante.