Tour gastronômico pela Toscana

Para viajar pela idílica Toscana, através da paisagem, da história, da arte, dos vinhos e da maravilhosa gastronomia regional, a ordem é não ter pressa

Rapolano Terme Rapolano Terme

 

A belíssima Florença, capital e coração da Toscana, é o melhor lugar para começar uma viagem pela região. A cidade é um verdadeiro museu a céu aberto, e são necessários pelo menos dois dias caminhando por ela, incansavelmente, enveredando por seus recantos, para conhecê-la um pouco. Não deixe de experimentar duas especialidades deliciosas típicas da cidade, o Bife a florentina, um filé alto, grelhado em carvão e malpassado por dentro, e o Crostini di fegato, uma pão ligeiramente torrado e sobre o qual se passa pasta de fígado.

Saindo de Florença, optei por percorrer estradas vicinais, pouco frequentadas, para apreciar a bucólica paisagem. Atravessei diversas vilas medievais, com suas vielas tortuosas, estreitas e sinuosas, cruzei pontes seculares, casarios centenários e parei em diversos alimentaris, pequenos estabelecimentos onde se come uma comida simples, saborosa, bem servida e barata.
Pelo caminho visitei pequenas adegas e vinícolas, onde experimentei os vinhos elaborados na região. Vinhos deliciosos que às vezes não custavam mais que um ou dois euros a taça. Após um pernoite na pequena e silenciosa Tavernelle Val di Pesa, segui rumo à histórica Siena, porém mais interessado nas vilas medievais ao redor do que nas cidades maiores e mais conhecidas.

Castelnuovo Berardenga
Castelnuovo Berardenga

 Chef Marco Luciano 01 Chef Marco Luciano 02 Chef Marco Luciano 03
Chef Marco Luciano 04 Chef Marco Luciano 05 Chef Marco Luciano 06
Os pratos do chef Marco Luciano

Vinhedo de SangioveseVinhedo de Sangiovese

 

O trajeto entre Florença e Siena é de apenas 72 km, que apesar de curto, se recomenda percorrer em dois dias. Os cenários parecem ter saído de um filme. A Toscana tem uma geografia pontuada por inúmeras colinas, que o homem cuidou, ao longo dos séculos, de recobrir com vinhedos. É a terra natal da uva Sangiovese, variedade tinta nativa da região, com a qual são produzidos vinhos tradicionais e muito famosos, como o Chianti, Brunello di Montalcino, Rosso di Montalcino, Vino Nobile di Montepulciano e, mais recentemente, os cobiçados Supertoscanos. Há milhares de produtores de todos os tamanhos, bem como adegas em todas as vilas, onde se pode degustar um sem número de rótulos regionais por valores muito modestos.

A culinária toscana utiliza uma grande variedade de cogumelos nativos da região e colhidos nos campos, pelas manhãs. Um dos pescados mais utilizados é o atum, que é frequentemente servido ligeiramente selado, quase cru no interior, acentuando seu sabor.
Carnes de caça são bastante apreciadas e não podem faltar o azeite extravirgem e deliciosos pães rústicos. É famoso também o macio e saboroso guance de maile, a bochecha de porco cozida e servida com legumes. Uma interessante curiosidade histórica: embora o Boeuf Bourguignon tenha adquirido fama mundial como um prato francês, ele se originou na italianíssima Toscana, onde é conhecido como Peposo, uma receita saborosa e simples de origem medieval, onde a carne de segunda é cozida lentamente em vinho tinto.

PeposoPeposo

 

O prato foi levado da Itália para a França por Catarina de Médici, quando se casou com Henrique II, no ano de 1523. Nascida em Florença, na Itália, ao se mudar para a França, Catarina levou consigo um séquito de amas, serviçais, cozinheiros, confeiteiros (ela era fã inveterada de doces) e ingredientes como a alcachofra, trufas e cogumelos. Levou, sobretudo, o ideal de refinamento à mesa. Uma vez na França, passou a ser atentamente observada pela nobreza. A história diz que apetite era o que não lhe faltava. No começo, seus hábitos causaram estranheza na corte, mas rapidamente se disseminaram entre a nobreza.
Foi Catarina que introduziu o exótico hábito de lavar as mãos antes das refeições. Da padaria toscana vem a Schiachiatta, uma focaccia assada e temperada com azeite de oliva e sal. Às vezes é adicionado à massa mortadela, salame ou queijo. Outro prato comum é o Baccelli i Pecorino, favas jovens com queijo pecorino, azeite, sal e pimenta. Em alguns casos, o prato é enriquecido com orégano, folhas de salsa, vinagre e alho. É geralmente servido com fatias de pão.

 

Laticastelli Relais ChateauNas fotos acima e abaixo: Laticastelli Relais Chateau

Laticastelli Relais Chateau 02

No dia seguinte, cheguei à Siena, onde o recomendável é desfrutar o resto do dia na cidade, apreciando suas muralhas e edificações medievais. Manhã seguinte, o objetivo é visitar a bucólica Rapolano Terme, distante 38 km.

Rapolano é uma pequena cidade de águas termais. Chegando lá no começo da tarde, a melhor pedida é ir direto para um banho em suas águas medicinais, quentes e sulfurosas.

Revigorado, é hora de relaxar um pouco, caminhar pela vila e esperar o jantar. Encantado com o lugar, decidi passar três dias explorando a área, e me hospedei no Laticastelli Relais Chateau, um hotel delicioso nos arredores da cidade. A edificação principal do hotel, erigida em pedra, data do longínquo século 11. O hotel tem uma charmosa viela principal, calçada em pedra com quartos dos dois lados, marcados por pequenas bandeirolas.

No restaurante do hotel, a autêntica e deliciosa gastronomia toscana, conduzida pelo competente chef Marco Luciano. Para entrada, frios e lascas do delicioso pecorino, um dos queijos mais emblemáticos da região.
Para beber, um Rosso de Montalcino, o irmão mais modesto do Brunello de Montalcino, um tinto leve, ácido e perfeito para entradas e antepastos. Os italianos mantém a tradição de servir entrada, primo piatto e secondo piatto, o prato principal. Um muito bem servido Bigoli com ragu de carne bovina e tartufo nero quase liquidou com a fome, mas ainda guardei espaço para um delicioso risoto di pecorino.
Para acompanhar o primeiro prato e o principal, um vinho mais encorpado e potente, um Brunello de Montalcino. De sobremesa, uma pannacotta, pudim de leite e creme de leite, servido com geleia de morango. Para finalizar a orgia gastronômica, o célebre cantuccini de amêndoas, biscoito que é uma especialidade típica regional, acompanhado de uma dose generosa de Vin Santo. Duas doses, no meu caso. Após o jantar, no clima ameno de setembro, permaneci no terraço, do lado de fora, olhar fixo na escuridão, ouvindo músicas medievais toscanas. Após doses generosas de vinho, a música ecoava em minha cabeça. Uma brisa gostosa balançava a folhagem e acentuava a sensação de acolhimento e tranquilidade.

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No dia seguinte, visitei vilarejos ao redor, como Castelnuovo Berardenga, a 20 km de distância. Com menos de uma centena de habitantes, o município se orgulha de ser uma “área desnuclearizada”. De Castelnuovo Berardenga, estiquei à Monte San Savino, a 38 km de distância, uma comuna medieval com pouco mais de oito mil habitantes. A luz de fim de tarde é quase sempre dourada. Os bucólicos vilarejos se intercalam com bosques de ciprestes, girassóis e as incontáveis colinas recobertas de vinhedos. Nos povoados, vielas estreitas escondem surpresas encantadoras, como pequenos alimentaris, lojas de embutidos e adegas, onde se come e bebe de forma simples e maravilhosamente bem, por muito pouco dinheiro. As estradas são caminhos de terra batida, de cor clara, quase branca. Pelo caminho, olivares, campos de trigo, muitos vinhedos, antigas praças e igrejas. De San Savino toma-se o rumo de belíssima Arezzo, pela estrada secundária E78.

Imperdível passar o resto do dia apreciando a cidade, suas praças e monumentos. No fim do dia, retornei a Rapolano Terme, onde mais um jantar maravilhoso me esperava. Novamente fiquei sentado lá fora, apreciando a brisa. É inviável viajar pela Toscana com um cronograma de horários rígidos. A sacada é justamente o contrário, é levar o tempo que quiser, parar onde quiser, se demorar mais ou menos, desfrutar mais longamente daquilo que nos encanta mais. Na Toscana, o importante não é chegar ao destino final, e sim desfrutar das belezas e encantos que no surpreendem pelo caminho. A cada final de tarde, um por do sol mais tranquilo e bonito que o outro, um cenário mais bucólico que o outro. E todas as tardes, uma sensação gratificante de lavar a alma. •  [Texto e Fotos: Johnny Mazzilli]

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COMO CHEGAR
Quem Leva
A SWISS tem voos diários de São Paulo à Zurich, e de lá conexão à Florença.
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[11] 3048 5810
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Onde Ficar
No romântico Laticastelli Relais Chateau, na pequena vila medieval de Rapolano Terme
www.laticastelli.com

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