Røros: celeiro gastronômico na Escandinávia

No interior da Noruega, a pequena Røros, uma antiga vila de mineração de cobre, preservou seu aspecto original, tornou-se um charmoso destino turístico e está no centro de uma região produtora de excelentes insumos de gastronomia. [Texto e Fotos: Johnny Mazzilli]

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Com pouco mais de cinco mil habitantes, a vila soube aproveitar seu aspecto pitoresco de 300 anos atrás, com seu casario de madeira com portas decoradas, pintadas com cores vibrantes e a marca registrada: os telhados gramados. Além da exuberância da natureza ao redor, com florestas, lagos e belos rios de corredeira, a região tem um histórico de produção de alimentos que atrai cada vez mais as atenções do mundo. Em 1980, a Unesco alçou Røros a condição de Patrimônio Mundial.

A exploração do minério de cobre se encerrou em 1972, e deixou sinais peculiares na cidade e no entorno, como a interessante Olavsgruva, uma caverna originada da extração do minério, com 500 metros de extensão e 50 metros de profundidade.

Turistas que a visitam empreendem uma viagem ao passado, através de um vislumbre da mineração de cobre desde os seus primórdios, em 1650. Na parte alta da cidade, precisamente ao lado da antiga fundição, hoje convertida em um curioso museu da mineração, montanhas de pequenos fragmentos de ferro fundido, subproduto descartado da separação do cobre, formam uma grupo de dunas negras e íngremes, que no inverno se cobrem de branco e parecem um grupo de montanhas nevadas que assomam no flanco da cidade.


 

Já no longínquo ano de 1771, a realeza da Noruega percebeu que a região era de alto valor estratégico para a produção de alimentos, e criou o que se conhece até hoje como The Circumference – a Circunferência, um limite circular em torno de Røros, e seu interior foi declarado área de especial interesse real. Hoje, a produção destes insumos torna-se cada vez mais expressiva. Renas são criadas livremente pelas montanhas, com as quais são produzidos cortes, embutidos e defumados. Na Galavold, uma bela fazenda nos arredores, são produzidos queijos estilo Gouda, e ovos e leite biológicos transformam-se em deliciosos sorvetes naturais, de sabor e textura incomuns. No verão, turistas saem da cidade e pedalam até a fazenda para se fartar de sorvete. Nos rios da região, entremeados de corredeiras, cresce o Pike, um peixe predador (Esox lucius), cuja carne branca, firme e saborosa é muito apreciada. Além das corredeiras, o pike também é criado em lagos adjacentes aos rios, e sua carne é exportada para restaurantes da Europa, notadamente para estabelecimentos em Londres, onde caiu no gosto dos comensais.

Pelas florestas, alces e javalis procriam livremente, e a  caça é praticada dentro dos limites das cotas estabelecidas pelo governo, e os restaurantes da cidade estão sempre bem abastecidos de seus cortes. Pelos campos, faisões são abundantes e também abastecem os restaurantes. Frequentemente, os próprios chefs locais vão à caça, e durante os meses do verão, aproveitam estas saídas para se abastecerem de cogumelos porcini, que crescem em profusão nos campos úmidos.

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A alguns quilômetros da cidade, antílopes são criados para a produção de embutidos finos. Pelos campos, crescem em abundância algumas variedades de berries, pequenas frutas características das regiões de clima temperado frio, com as quais são elaboradas saborosas geléias de cores vibrantes.
No Noma, o celebrado restaurante dinamarquês situado na capital Copenhagen, eleito três vezes o melhor do mundo, a manteiga utilizada na cozinha é produzida em Røros, cuja pequena fábrica produz também um saboroso queijo cottage.

No Erzscheidergården, nome difícil de um pequeno e acolhedor hotel e restaurante local, o café da manhã já foi premiado como o melhor da Noruega – o que definitivamente não se traduz em dezenas de opções, e sim oferecer um set irresistível de delícias típicas, elaboradas com produtos frescos locais.

Tamanho envolvimento com a gastronomia só pode ser possível através de muita dedicação continuada – em Røros, as crianças estudam gastronomia no ensino fundamental, com ênfase na produção local. O resultado é que as pessoas tem uma espécie de orgulho cívico de seus destacados insumos locais. Além disso, qualquer pessoa na cidade sabe precisar de imediato onde se situam os produtores dos mais variados insumos.
Além da gastronomia, que atrai cada vez mais turistas, a cidade também tem expressiva produção artística. No pitoresco e muito bem preservado centro histórico, encontram-se diversas lojas e oficinas de artesãos, dos quais o maior expoente é, sem dúvida, o escultor Per Sverre Dahl, com suas curiosas e bem humoradas peças de argila. Em 1853, um decreto real determinou que todos os anos tenha lugar em Røros um mercado público festivo de rua, sempre na segunda quinzena de fevereiro, com quatro dias de duração. O mercado – Røros Martnan, com o tempo tornou-se o principal evento do calendário turístico da cidade, com mais de 200 expositores e que atrai anualmente mais de 20 mil visitantes. Os expositores e produtores rurais vendem suas artesanias, geléias, ovos, embutidos, manteigas, peixes e carnes defumadas, presuntos de rena e de ovinos, queijos e cogumelos.

Espetáculos de dança e shows com bandas de rock e blues se sucedem noite adentro. Como o evento acontece no fim do inverno, o frio faz os pubs e restaurantes ficarem literalmente abarrotados de gente, que atravessa a noite bebendo, comendo e dançando. •

COMO CHEGAR
Quem Leva
A SWISS tem voos diários de São Paulo a Zurich, e de lá a Oslo.
Do aeroporto de Oslo 
são três horas até Røros em um confortável trem.
[11] 3048 5810
www.swiss.com

Onde Ficar
Vertshuset Hotel
www.vertshusetroros.no

Onde Comer
Vertshuset
www.vertshusetroros.no

Erzscheidergarden
www.erzscheidergaarden.no

Bergstaden
www.bergstadenshotel.no

Quando ir
Fevereiro – No fim do longo inverno escandinavo, tudo está inteiramente nevado e o frio é ameno. A cidade torna-se mais bucólica e acolhedora, com muita neve e luzinhas acesas em toda parte. São populares os passeios de trenó e de esqui, e é a época do festival Røros Martnan.

Junho a agosto – Nos meses de verão a paisagem é verdíssima e exuberante. Há atividades para todos os gostos, como caminhadas, pedaladas, descidas de rios em caiaque, pesca de pike e salmões, visitas a produtores variados, caçada de cogumelos, degustações e festivais gastronômicos.

Informações sobre Røros
www.roros.no

Turismo na Noruega
www.visitnorway.com/us

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