Olho nele: The Brazilian Producer

Ele abriu as portas de Hollywood para a produtora brasileira por trás do fenômeno Frances Ha. Aqui, Fernando Loureiro conta como
[texto: Camilla Schahin | imagens: Divulgação]

 

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Enquanto esteve na área internacional da produtora brasileira RT Features, o jovem Fernando Loureiro abriu parcerias com produtoras do peso das de Brad Pitt e de Ben Stiller. Com Scott Rudin (A Rede Social), são responsáveis pelo fenômeno independente Frances Ha, deirigido por Noah Baumbach (A Lula e a Baleia).
De Los Angeles, onde vive hoje e montou sua própria produtora, ele conversou com S.A.X. Magazine.

 

Frances Ha é sua mais recente produção? Como foi produzi-lo?
Frances Ha foi um filme muito especial desde o começo para mim. O Noah [Baumbach] sempre foi um diretor e roteirista que eu respeitei muito. Quando apareceu a oportunidade de trabalhar com ele e com Scott Rudin, não pensamos duas vezes. Foi uma decisão fácil de tomar porque acreditávamos muito no time por trás do filme. O Noah sempre teve em mente que de certa forma ele queria fazer o filme mais comercial e acessível que ele já havia feito, e acredito que ele cumpriu isso. Ainda por cima, a proposta financeira era incrivelmente rara e de relativamente baixo risco. Todos no filme estavam dispostos a trabalhar com um orçamento muito menor do que estavam acostumados para em troca poder ter uma certa liberdade para fazer o melhor filme possível. Demos muito espaço para o Noah e em nenhum momento interferimos no seu trabalho, ao contrário: fizemos de tudo para facilitar a produção e tudo correu muito suavemente, dentro do orçamento proposto. Conseguimos fazer milagres levando em consideração todos os lugares em que filmamos. O filme foi uma experiência muito boa para mim e curti muito o resultado, tanto artístico quanto de bilheteria. Mas acima de tudo, tenho adorado ouvir quanto o filme tem tocado certas pessoas. Já ouvi inúmeras vezes de pessoas o quanto elas se identificaram com a Frances e que elas emocionalmente estão passando por uma fase similar à dela. Tende a ser um filme pessoal para elas.

Você prefere fazer algum gênero de filme? Como faz suas escolhas?
Não gosto de me limitar trabalhando dentro de um só gênero. Acredito que sou como a maioria das pessoas, tenho um gosto bastante eclético. Ao considerar um projeto, é impossível prever se as pessoas vão gostar do filme ou não. Não interessa quanto bom é um filme ou quanto sucesso ele faz, sempre haverá alguém que não vai gostar dele. Portanto, a primeira pergunta que faço para mim mesmo é se eu gostaria de assistir esse filme. É impossível prever o gosto dos outros, mas pode ter certeza que se você gosta do filme, haverá outras pessoas no mundo que também vão gostar. Eu gastaria meu tempo e o meu dinheiro para assistir esse filme? Se a resposta for sim, me pergunto se é um filme original e se ele realmente tem uma razão para existir. Filmes como ele já foram feitos antes? Como é que esse filme é diferente de qualquer outro filme feito antes? A próxima pergunta que é importante fazer é se o filme faz sentido financeiramente. Haverá pessoas suficientes que possam gostar desse filme? Geralmente, quanto mais universal for o tema, mais comercial será o filme. Para mim, é muito importante que eu seja extremamente responsável e que eu sempre faça de tudo para proteger o investimento de investidores. Por exemplo, Frances Ha foi um filme que fez sentido dentro do orçamento em que ele foi executado. Obviamente, não faria sentido produzir esse tipo de filme com um orçamento grande pelo tipo de filme que ele é. Mas dentro do orçamento com o qual trabalhamos, o filme foi um grande sucesso. Ao considerar um filme, um aspecto primordial para mim é a historia e o roteiro. A história tem que ser muito boa, original, com personagens complexos e bem escritos. O roteiro é extremamente importante. Não adianta: se não está na página, não estará na tela. O outro aspecto crucial para mim é o time com quem eu vou trabalhar, tanto em frente quanto por trás das câmeras O que a maioria das pessoas esquece é que demora anos para produzir um filme. É muito trabalho e muito estresse. Diferente da maioria das outras artes, filme necessariamente é um trabalho de equipe. Ao me decidir por uma produção, levo em consideração com quem vou trabalhar. As pessoas têm que ser profissionais e de extrema confiança. Sempre procuro trabalhar com pessoas que vão me inspirar, me ensinar coisas diferentes constantemente e com quem eu vou curtir passar o tempo no decorrer do longo processo de fazer um filme. A vida é curta demais para trabalhar com pessoas que você não respeita ou não tem prazer em trabalhar com elas. 

Como chegou aos Estados Unidos?
Na verdade, morei a maior parte da minha vida fora do Brasil. Fui morar em Londres com um ano de idade e fui criado lá e em Nova York. Só aprendi português direito com 12 anos de idade quando me mudei para São Paulo. Depois disso, fiz faculdade em Boston e desde então sempre trabalhei com a indústria de cinema americana.

Que trabalhos já fez nesta indústria?
Quando eu trabalhava na RT Features, era encarregado de supervisionar os projetos internacionais da empresa. O meu trabalho era principalmente no desenvolvimento desses projetos e eu ajudava a administrar o lado criativo, financeiro e jurídico dos projetos. Desde que abri minha própria produtora em Los Angeles, continuo fazendo esse mesmo tipo de trabalho, mas agora também levanto financiamento para filmes. Quando fui trabalhar na RT, ajudei a começar o lado internacional da empresa. Portanto, no começo, a criação de novos contatos e relacionamentos era o aspecto mais importante do meu emprego. Ajudei a desenvolver as estratégias para cada projeto e isso incluiu fazer certas parcerias. Ao longo do tempo essas parcerias envolveram empresas como a produtora do Brad Pitt; a produtora do Ben Stiller; o Scott Rudin, que para mim é um dos maiores produtores independentes, e Kennedy / Marshall, que produziu a maioria dos filmes do Steven Spielberg e a série de filmes Bourne, entre muitos outros.

 

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“O roteiro é extremamente importante. Não adianta: se não está na página, não estará na tela”

 

Por que você escolheu fazer cinema?
Eu tinha quatro anos de idade quando minha mãe me levou para assistir E.T. do Steven Spielberg, em Londres, onde a nossa família morava. Eu lembro muito bem daquela sala de cinema, mas mais do que qualquer outra coisa eu lembro das emoções que eu senti. Eu fiquei muito impressionado com o modo como todos os espectadores reagiram, de maneira parecida, e principalmente com o choro coletivo quando acharam que o E.T. ia morrer. Daquele dia em diante, eu sempre fui completamente obcecado por filme e televisão em geral. Aquele dia me acompanha todos os dias e sempre soube que iria trabalhar com cinema. Não que E.T. seja meu filme favorito, seria impossível escolher somente um como meu filme predileto, mas digo com toda a honestidade: se eu conseguir produzir apenas um filme que inspire ou toque a vida de outra pessoa da mesma maneira como aquele, junto com dezenas de outros filmes que me tocaram, vou considerar a minha carreira um grande sucesso. Essa continua sendo a minha maior motivação todos os dias.

Quais são os ingredientes de um filme de sucesso?
A frase mais famosa dentro da indústria, que é atribuído ao grande roteirista e vencedor de Oscar, William Goldman, é que “ninguém sabe de nada”. A ideia por trás disso é que ninguém tem como saber quais filmes farão sucesso e quais serão fracasso. Ultimamente, temos visto isso mais e mais: filmes que custaram mais de 200 milhões de dólares e são vistos como super comerciais acabam sendo fracasso absoluto quando são lançados. Ao mesmo tempo, alguns filmes que no papel ninguém imaginaria que fariam sucesso acabam ultrapassando todas as expectativas. Existem milhares de fatores que influenciam o resultado de um filme, tanto artísticos quanto financeiros, portanto é impossível prever como um filme será recebido. Temos que manter em mente que na carreira de qualquer pessoa trabalhando com cinema, você participará de sucessos e de fracassos. O importante é conseguir ter uma carreira comprida suficiente para idealmente ter mais sucessos que fracassos. Mas acima de tudo é saber que essa indústria é cíclica. Mais que qualquer outra indústria, ela pode ser uma verdadeira montanha russa em todos os aspectos. Portanto, nunca deixe o sucesso subir à sua cabeça e nem o fracasso te derrubar. No final das contas, nunca se sabe, tudo poderá mudar com o seu próximo filme.

 

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“Frances Ha foi um filme que fez sentido dentro do orçamento em que ele foi executado; não faria sentido produzi-lo com um orçamento grande”

 

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No centro, o diretor de Frances Ha, Noah Baumbach com os atores Greta Gerwig e Michael Zegen (à direita)

 

A LISTA DE TARANTINO
Divulgada todos os anos pelo diretor Quentin Tarantino, a lista dos dez filmes de que mais gostou em 2013 traz ‘Frances Ha’, produzido por Fernando Loureiro na RT Features em parceria com Scott Rudin
1. AFTERNOON DELIGHT, de Jill Soloway
2. ANTES DA MEIA NOITE, de Richard Linklater
3. BLUE JASMINE, de Woody Allen
4. INVOCAÇÃO DO MAL, de James Wan
5. DRINKING BUDDIES, de Joe Swanberg
6. FRANCES HA, de Noah Baumbach
7. GRAVIDADE, de Alfonso Cuarón
8. KICK-ASS 2, de Jeff Wadlow
9. O CAVALEIRO SOLITÁRIO, de Gore Verbinski
10. É O FIM, de Seth Rogen e Evan Goldberg

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