O poeta e o playboy

A (pen)última entrevista de Jorginho Guinle

“O primeiro dia em que o Vinicius chegou na embaixada, foi visto com os pés em cima da mesa tocando violão.”
Por Alex Solnik | fotos Arquivo Família Guinle

Jorginho Guinle 01

 

Em fevereiro de 2003, Jorginho Guinle estava internado no hospital quando pedi para entrevistá-lo a respeito de Vinícius de Moraes que naquele ano completaria, se estivesse vivo, 90 anos. Eles se conheceram em Los Angeles, onde saíam com Orson Welles, Marlene Dietrich, Marilyn Monroe e outras estrelas desse quilate. O playboy atendeu o telefone dizendo: “Os médicos me proibiram de falar, mas vou desobedecê-los só porque é para falar sobre Vinícius”.

Então, me conta, Jorginho, sobre a sua amizade com Vinicius de Moraes.
Eu conheci Vinicius em Los Angeles, em Beverly Hills, em 1942, quando ele era cônsul. Vinicius era cônsul lá e…Não, o cônsul era o Raul Bopp, o escritor. Tinha também o Érico Veríssimo lá, tinha uma turma da pesada. O Vinicius era vice-cônsul. E o Vinicius era um grande amigo de um grande amigo meu chamado Neshui Ertegum. Foi ele que salvou o Pelé da bancarrota. Fez aquele… como é que chamava aquele time de futebol americano?

O Cosmos.
Hein?

Cosmos.
Qual é?

O Cosmos…
É… o Cosmo, não era? Ele é que era o dono. Ele era alucinado por futebol, ele já faleceu, era um grande amigo meu, ele e o irmão. O Pelé foi contratado e assim saiu da bancarrota. O Neshui é turco. Ele e o irmão vieram aos Estados Unidos em 1942, tinham uma gravadora pequena de jazz, depois venderam a Atlantic Records por 19 milhões de dólares! Isso feito com discos de jazz, hein? É curioso. Então, o Vinicius ficou um grande amigo meu por causa do nosso amor ao jazz. Na época, ele era fanático por jazz de Nova Orleans. Éramos também amigos, fazia parte do nosso grupo o Orson Welles. Que também era outro alucinado por jazz de Nova Orleans. E eu comecei nesse grupo.
Eu me lembro que, uma vez, o Orson Welles me telefonou e disse assim: “Olha aqui, vem comigo, eu vou jantar com o maestro Stockowski e ele quer que eu dê uma aula de jazz de Nova Orleans pra ele”. E eu fui com o Orson, tocamos uma porção de discos e eu ouvi essa coisa fabulosa: o Orson ensinando ao Stockowski o que era o verdadeiro jazz de Nova Orleans.

Vinicius estava com vocês?
Eu não tenho certeza absoluta. Mas se não estivesse era a mesma coisa, porque ele era dos nossos… Aquelas épocas todas foram fabulosas. Eu fiquei dois anos e meio em Hollywood sem sair. A gente vivia nos estúdios sempre, tínhamos contato quase diário por telefone. O Raul Bopp ficou muito meu amigo também.

Vinicius gostava dessa vida?
Naturalmente, eles lá no consulado eram muito elitistas para negócio de estúdio, compreende? Mas o Vinicius acabou conhecendo essa gente toda que eu apresentei pra ele: o Nelson Rockefeller, o Jack Warner, o Darryl Zanuck. E se integrou no grupo. Que era um grupo diferente. De sociedade, como eles chamavam lá. Tinha Marlene Dietrich, a Greta Garbo. Formidável, não é? Então, meu grande contato com Vinicius foi durante dois anos em Los Angeles. Depois, eu vi o Vinicius aqui no Rio, muito, mas muito menos do que eu via lá. Então, a grande recordação que eu tenho do gênio que ele era e da pessoa formidável é lá de Los Angeles… Era guerra, os estúdios estavam muito interessados em agradar o Brasil…fizeram aquele negócio do Zé Carioca, por exemplo. Nós fomos muito amigos do Disney. Também é da época o filme do Orson Welles sobre o Brasil, filmado no Brasil.

Vinicius entabulou algum trabalho em Hollywood?
Não, o consulado era sempre consultado, eu era amigo do Vinicius e do Raul Bopp… eu quase que trabalhava no consulado, telefonava todo dia para ver o que havia. Vou te dar um exemplo. O Vinicius me telefonou, me disse: “Olha, o general Dutra, ministro da Guerra, vai passar por Hollywood e queria conhecer um estúdio.” Por acaso, o dia em que o general passava era feriado. Ih, meu Deus, ninguém vai estar filmando coisa nenhuma! Tive uma sorte danada, estavam filmando na Twentieth Century Fox A Canção de Bernardete. Foi uma fita muito famosa. Em 42. Levei o Dutra ao estúdio. Estavam filmando realmente com uma mulher chamada Jennifer Jones. Quando nós chegamos era pausa da filmagem. Estavam lá as “freiras” todas fumando. Faziam de freira. Bernardete era uma freira. Aí, todo mundo vestido de freira. E fizeram questão de tirar, como faziam sempre quando uma pessoa importante vinha visitar o estúdio, uma fotografia do Dutra com os artistas. Aí, o Dutra chegou pra mim: “Jorge, que bom que eu estou tirando uma foto com as freiras. A Santinha, minha mulher, vai gostar disso”. O Vinicius também estava lá comigo nessa reunião, representando o consulado e eu representando o Coordinator of American Affairs, do Nelson Rockfeller, meu amigo pessoal. E o Vinicius conhecia também o Nelson.

Vinicius recitava as poesias dele?
Não, não se falava em poesia. Falava-se em jazz e cinema.

Ele era casado na época?
Não, solteiríssimo! Solteiro.

Então vivia nas festas junto com você…
Vivia. Dependia… das festas pertinentes a essas coisas…Porque, em geral, todo o pessoal de consulado tratava de outros assuntos, compreendeu? Cinema não tinha nada que ver com consulado. Só quando se referia a coisas da América do Sul, como Disney… eu vi todo aquele negócio de “Saludos”, aquela coisa toda que houve de Política da Boa Vizinhança entre o Brasil e os Estados Unidos… Tivemos aquele filme do Orson, que não passou, que nunca foi feito…. como é que chamava?

“It’s All True”
“It’s All True… eu vi todos os takes. Uu vi horas e horas e horas de takes…

É verdade que as latas com os negativos foram jogadas no mar?
Hein?

É verdade que, no Brasil, jogaram as latas no mar?
Imagina! Tudo em Hollywood, o que é isso!

As latas das filmagens que ele fez no Brasil, eu digo…
Estavam todas em Hollywood… eu vi! Não tem nada de jogar no mar.

Porque tem um filme do Rogério Sganzerla, chamado “Sob o signo do caos”, em que ele diz que as latas com os negativos do Orson Welles foram jogadas ao mar pela censura brasileira, pelo DIP.
Imagina! Bom, eu não posso… Se ele diz que foi, pode ser. Mas eu duvido. O DIP, ao contrário, ajudava tudo isso, ajudava todo mundo. Foi o DIP que me mandou pra Hollywood. Eu fazia parte do DIP junto com esse Coordinator of American Affairs, do Nelson Rockefeller.

E o Vinicius não se envolveu com nenhuma atriz?
Eu acho que não. Era muito difícil, sabe? Tinha que visitar os estúdios, como eu fazia. Eu era amigo dos donos dos estúdios. Eu era amigo pessoal do Jack Warner, ia à casa dele aos domingos, ver cinema, claro… Como tinha aqui o cineminha do Harry Stone, lá era o cineminha do Jack Warner. Uma casa fabulosa, a mais bonita casa de Hollywood, cheia de gente, tinha de Greta Garbo a quem você possa imaginar, todo mundo lá. Essas festas muito grandes eram coisas do pessoal de Hollywood, não tinha nada que ver com consulado. Mas a gente teve uma vida… Ele era muito admirado, sabiam do valor dele. Eles sabiam que ele era um cara importante. Do Brasil eles não conheciam nada. Quando eu trouxe gente de lá para o festival de cinema de São Paulo, que foi o primeiro festival de cinema no Brasil, por ocasião das festas do IV Centenário, em 1954, ninguém tinha ouvido falar em São Paulo e o que era. Mas ninguém mesmo. Confundiam Argentina com Brasil. Mas isso é a mesma coisa como qual é a segunda cidade da Tchecoslováquia? Ninguém sabe.

Nem a primeira…
Nem a primeira. Quanto mais a segunda.

O Vinicius também esteve na organização desse festival, não é?
Ele também, comigo, nós dois. Ele era até o meu patrão, praticamente. Quando houve o festival, nós viemos juntos, de Hollywood. Vinicius teve uma participação importantíssima. Principalmente para fazer a Cinemateca.

Ele também foi censor do DIP.
Essa eu não sabia. Era censor aqui no Brasil?

Era.
Eu não me lembro., Quem foi censor foi um sujeito chamado Israel Souto. Ele era do DIP. Ele é que assinava todas as fitas do cinema, todas tinham que ter a assinatura dele pra passar.

Pois é, o Vinicius ficou pouco lá, ele não tinha nada que ver com proibição…
Ele era liberal… marxista…como todo mundo era naquela época. Eu também era. Eu não fazia parte de nada, mas tinha admiração pela doutrina. Não era engajado nem mesmo… como é que chamava?… o pessoal que era capitalista mas ajudava o marxismo… Inocente útil! Inocente eu nunca fui… Útil, eu já fui.

O Vinicius chegou a mencionar pra você sobre música, que ele queria compor…
Não, nunca…

Não sei se você sabe, ele compôs a primeira música aos 15 anos. Se chamava “Loira ou Morena?” em parceria com os irmãos Tapajós. Ele era amigo deles.
Eu também, eu conhecia essa turma toda. Mas não me interessava. O que me interessava era jazz. Minha praia era o jazz.

Vinicius falava inglês fluentemente?
Falava. Falava bem.

E andava de terno, gravata?
Ah, sim. Naquele tempo ninguém andava esculhambado. Não existia isso. Eram outros tempos. Olha que eu nasci em 1916…

Ele se queixava de usar gravata?
Não, ele nem pensava de outra maneira. Imagina você entrar com uma bermuda num banco. Nem deixariam entrar. Oitenta por cento das pessoas andavam de gravata.

Agora, tanto você como ele adoravam mulheres…
Ah! Claro!

Como é que ele participava disso?
Ele tinha lá as namoradas dele… Devia ter, claro que tinha. Tinha um rapaz lá, também, chamado Raul, mas esse gostava de outra coisa… Deixava o campo livre pro Vinicius.

Vinicius não dava em cima das atrizes, como você?
Não, eu é que ia muito aos estúdios, tinha entrada livre em tudo quanto era estúdio. Telefonava pra Metro: o que é que estão filmando hoje? Estamos filmando tal coisa… Então, eu vou aí pra ver. Eu vi, por exemplo, filmarem… acho que era na Twentieth Century… eu vi filmarem aquela cena célebre de Casablanca, em que o homem está tocando o piano, e o Humphrei Bogart diz “Play it again, Sam!” Eu vi filmarem em pessoa aquilo tudo. E só fui ver o filme dois anos depois.

O Vinicius se dava com algum diretor de Hollywood?
O Orson estimava muito Vinicius. Eram muito amigos. Os outros, que não eram intelectuais, eram de outra turma, de Ava Gardner, não sei o que, essas não sabiam quase que ler e escrever. Então, era o Errol Flynn, era uma turma mais de café-society…Eu freqüentava todos os grupos. O do society era freqüentado pela mulher do Jack Warner… pela Marlene Dietrich… como é que se chamava a outra? Heddy Lammar…Era essa turma toda. Mas, como eram festas muito grandes, gente de embaixada, assim, o Vinicius era o mais cotado lá, não pela importância da posição dele, mas por ele…

Por que? Ele era um cara espirituoso?
Ah, ele tinha aquele charme dele… E, depois, ele era muito ligado ao jazz. Então, pra mim, era um prato cheio. Nós éramos muito ligados ao jazz. Aliás, meu livro Jazz Panorama, o primeiro livro sobre jazz em língua portuguesa, foi o Vinicius que fez a apresentação. Depois, toda a fase de Ipanema, eu via muito menos ele. Sempre com muito carinho, ele, o Tom, a turma toda, mas com muito menos freqüência de telefonar todo dia. O Orfeu eu vi em Cannes… eu representava o governo brasileiro no Festival de Cannes, eu vi a estréia do Orfeu.

E o que o Vinicius falava do Orfeu?
Não sei se o Vinicius estava lá… quem estava era o Justino Martins. O Vinicius devia estar. Foi um filme aplaudido de pé durante meia hora e ganhou o festival. Estive também com Vinicius em Paris. Eu estava no Champs Elisée, no táxi, no carro, e começou uma pessoa a buzinar, a buzinar, a buzinar atrás de mim. Quando eu fui ver… Em Paris é proibido buzinar, você sabe. Passou o carro, era o Vinicius dirigindo. “Ô, você por aqui?” Depois, tinha um embaixador meio chato. O primeiro dia em que o Vinicius chegou na embaixada, estava o Vinicius com os pés em cima da mesa tocando violão. O embaixador ficou uma fera: “Mas que é isso, Vinicius?!”

Nessa época o Vinicius já tinha sucesso com as mulheres?
Muito sucesso! Ele, de mansinho, fala mansinha, ia entrando, assim, mansinho e entrava. Era muito dele, esse negócio de ir, assim… Quase que sem perceber, quando a mulher via, já estava na cama com ele.

Soube que ele teve um caso com Sarah Vaughan?
Ele teve um caso com a Sarah Vaughan? Então eu não soube…Isso é muito possível, mas eu não sabia. Quando ela começou, não era tão feia. Depois, ficou horrorosa… Mas quando ela começou, bem cedinho, o apelido dela era Sessy. Ela era bonitinha, não era feia… Não era de se jogar fora…

Mas, pelo que contam, Vinicius pegava mulher feia também…
Pegava qualquer coisa…

[Leia 'Diário de um longa']

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