Marquês de Sade: ao vivo e a cores

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Pobre Emanuela Orlandi! Filha de um funcionário da Prefeitura da Casa Pontifícia, ela desapareceu no Vaticano sem deixar vestígios no dia 22 de junho de 1983 aos 15 anos. Em junho de 2008, Sabrina Minardi, ex-namorada de Enrico De Pedis, chefe da gangue Banda della Magliana declarou que, segundo lhe dissera seu namorado, já assassinado a essa altura, Emanuela teria sido sequestrada, e em seguida, morta e jogada em um misturador de cimento em Torvaianica, por ordem do arcebispo Paul Marcinkus, diretor do Banco Ambrosiano, que queria enviar uma “mensagem para alguém acima deles”: o pai dela “terá visto documentos que não devia ter visto”, sendo necessário mantê-lo calado.
Os mais desconfiados podem duvidar que um bandido tivesse relações com gente da alta cúpula da Igreja, mas é verdade, por mais inverossímil que pareça: a polícia italiana descobriu que De Pedis estava enterrado no Vaticano, mais precisamente na Basílica de Santo Apolinário, juntamente com papas e cardeais. Dias depois, veio a declaração mais estarrecedora: o padre Gabriele Amorth afirmou que Emanuela fora raptada por um membro da polícia do Vaticano para ser utilizada em orgias sexuais e, então, assassinada. É uma história macabra que poderia fazer parte do enredo de “Os 120 dias de Sodoma”, em que quatro milionários devassos promovem a maior orgia de todos os tempos, com ingredientes de revirar o estômago, tais como a exigência de haver algumas virgens da idade dessa moça, sequestradas obrigatoriamente de lares da alta aristocracia, a respeito do que falaremos mais adiante.
Não se sabe se os papéis que o pai de Emanuela não deveria ter visto tinham alguma coisa a ver com orgias ou com pedofilia. O silêncio em torno do caso foi brutal. A última vez em que o Vaticano tinha sido relacionado a orgias sexuais foi no pontificado de Alexandre VI (1492-1503).

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A Ponte do Anjos, e a Basílica de São Pedro, em Roma

 

50 prostitutas
Custamos a crer na informação de que, algum dia, prostitutas tivessem tido acesso livre a locais frequentados por religiosos de alta estirpe, mas devemos ater-nos aos fatos: há documentos confiáveis segundo os quais, a 30 de outubro de 1501 foi realizada no Palácio Apostólico de Don Cesare Borgia, filho do Papa Alexandre VI uma bacanal que ficou conhecida para sempre como a Festa ou a Noite das Castanhas, na qual o papa e sua filha, Lucrécia Bórgia deram o ar de sua graça, tendo sido ao menos voyeurs, mas a crer por suas biografias, também participantes ativos.
Uma narrativa minuciosa do banquete conspícuo é preservada em um diário em latim intitulado Liber Notarum. Cinquenta prostitutas foram contratadas para o entretenimento dos convidados, todos eles homens de elevada estatura eclesiástica ou política. Depois do rega-bofe, que se constituiu em mais de 30 pratos diferentes das mais finas iguarias afrodisíacas importadas de todas as partes do mundo e de dúzias de garrafas de vinho e de vários tipos de aguardente, o ritual teve início.
Desde logo as prostitutas livraram-se de suas roupas, que foram leiloadas a peso de ouro pelos já ébrios convivas em poucos instantes. Em seguida, criados despejaram no chão de mármore centenas de castanhas em toda a extensão do salão e colocaram nele também os candelabros, escurecendo o ambiente e jogando sombras sobre as paredes.
As moças foram instadas a se deslocar engatinhando a fim de apanhar as castanhas com a boca, enquanto os convidados dispunham de seu corpo da forma que desejassem. Aquela que colhesse mais castanhas em menos tempo seria consagrada vencedora.
Havia também uma competição destinada aos homens. Prêmios como gibões de seda, pares de sapatos, chapéus e outras peças caras de vestuário eram arrematadas pelos que fossem mais bem sucedidos com as prostitutas. Servos mediam o número de orgasmos de cada homem, para o papa admirar a virilidade e o machismo dos convidados por sua capacidade ejaculativa.
A historiadora Barbara Tuchman relata em The March of Folly: O papa presidiu a um banquete oferecido por Cesare no Vaticano, famoso nos anais da pornografia como o Balé das Castanhas. Segundo o sóbrio registro feito por Burchard, cinquenta cortesãs dançaram após o jantar com os convidados, “a princípio vestidas, e, depois nuas”. Em seguida, os candelabros com velas acesas foram retirados das mesas e colocados no chão, espalhando-se castanhas em torno, “as quais as cortesãs apanhavam, gatinhando de quatro em torno dos candelabros, enquanto o papa, Cesare e sua irmã Lucrécia assistiam. Seguiu-se a copulação entre os convidados e as cortesãs, com prêmios na forma de finas túnicas e mantos de seda oferecidos “àqueles que conseguiram realizar o ato mais vezes com as cortesãs.”

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Vênus de Milo

 

Ordem de Afrodite
Vinte e nove anos depois do desaparecimento de Emanuela Orlandi, surge na Europa, em dezembro de 2012 uma organização secreta que promove bacanais em castelos e outros serviços sexuais denominada Madame O que se apresenta como sucessora de uma certa Ordem de Afrodite:
A Ordem dos Libertinos existe desde meados do século XVIII mas seu renascimento deu-se em Veneza em outubro de 2005 e sua reconstituição em 12/12/12 por iniciativa de um grupo formado por 12 parceiros graças às descobertas de um deles, descendente direto de Giacomo Casanova que conseguiu reunir documentos inéditos a respeito do estilo de vida de sua nobre família de Veneza. Os manuscritos acerca da constituição da antiga Ordem de Afrodite estiveram desparecidos por séculos, até a era barroca.
Nascido a 2 de Abril de 1725, filho de uma atriz de 17 anos de idade e provavelmente do nobre Michele Grimani, proprietário do Teatro de San Samuele, onde a sua mãe passou a atuar, Casanova foi educado para a vida eclesiástica. Uma aura mágica envolve toda a sua vida de debochado, libertino, colecionador de mulheres, escroque e conquistador empedernido que percorria os bordéis de Londres todas as noites para ter relações com mais de 60 meretrizes. Nos 28 volumes que compõem suas memórias, diz ter dormido com 1.220 mulheres ao longo da vida.
A Ordem de Afrodite foi proscrita pela Inquisição. Era então necessário haver um lugar exclusivo, seguro e elitista para não perturbar o Sistema, coragem individual para garantir a liberdade de expressão, uma genuína liberdade de pensamento que furasse a barreira do dogmatismo durante séculos, prudência e discrição para continuar viva. A Ordem manteve seus ideais e realizou encontros por um longo tempo até chegar ao século XVIII e entrar em plano ascendente até hoje.

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O segredo é a alma desse negócio. Não se sabe quem são, exatamente, os 12 parceiros do Madame O, se é que são 12 e onde fica a sede do empreendimento, provavelmente na Itália, que tem tradição de bacanais desde os tempos antes de Cristo. O único contato é um site que tem um lado visível e outro invisível, com alguns trechos em português mal traduzido. Destina-se o primeiro a quem quer entrar no clube e que, se obedecer às rígidas exigências de ingresso poderá ter acesso a festas temáticas como essas, em locais aristocráticos, com nomes enigmáticos, tais como “Casanova e as nobres virgens de Veneza” e que estão no lado invisível do site:

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Sexo ilimitado delivery
Madame O também oferece o que chama de Libertine Private Concierge Services: “Nossa rede na Europa e nossas relações em todas as regiões do globo permitem-nos oferecer aos membros, sob o prisma libertino uma série de eventos exclusivos, feriados, serviços e facilidades na maioria das cidades nos quatro cantos do mundo. Nossa missão é ir além das expectativas dos nossos membros. Nós estamos convencidos de que o assunto qualidade é o mais importante e perseguimos sempre a perfeição. Oferecemos aos nossos membros serviços de “alta costura” e totalmente personalizados. Todos os serviços podem ser desfrutados na maioria das cidades em todo o mundo, desde que estejam de acordo com a legislação do país. Membros podem desfrutar dos serviços por uma noite ou um fim de semana ou uma inesquecível tarde libertina; às vezes eles solicitam eventos exclusivos com os mais heterodoxos serviços para realizar seus mais incríveis, excitantes, eróticos momentos íntimos.”

 


Uma carteirinha de membro pode levar até três meses para ser concedida. Há uma série de critérios e de exigências, que vão desde a capacidade de preservar o sigilo total até a aparência física do candidato. Todos os dados fornecidos estão sujeitos a averiguações. A organização tem que se preservar e preservar a identidade de seus membros, seja por razões pessoais ou quaisquer outras. Desde logo, o nome do candidato a membro fica apenas nos registros de dados e ele passa a ganhar um pseudônimo, pelo qual será conhecido pelos demais membros que jamais, sob hipótese alguma saberão seu nome verdadeiro. É obrigatório usar máscara veneziana nas festas. Quem reservar ingresso a uma festa, mas não comparecer será proibido de entrar na próxima e se faltar a duas, é jubilado. A carteirinha é pessoal e intransferível, podendo ser cancelada a qualquer momento, sem que Madame O tenha de explicitar os motivos. Um dos pecados mais graves é revelar publicamente o que acontece numa “festa libertina”. Faz parte do regulamento o comportamento sempre elegante, o que implica dizer que ninguém pode entrar na viagem sexual dos outros sem ser convidado, por exemplo. A casa também avisa não ser responsável pelo que possa acontecer aos convivas no decorrer do evento.

Bacanais romanas
Havia dois tipos de bacanais durante o Império Romano: as festas religiosas celebradas em época certa, em homenagem a Baco, que o mesmo deus celebrava perpetuamente, e as festas ou orgias do culto dionisíaco, famosas na história de Roma, em virtude da proibição com que as suspendeu o Senado, no ano 186 a.C. Um minucioso relato do historiador Tito Lívio e o texto do “Senatus Consultus de Bacchanalibus”, conservado numa prancha de bronze, permitem conhecer com exatidão a história das bacanais romanas e os motivos que determinam a rigorosa medida do Estado contra eles. O culto se celebrava durante a noite, admitindo-se homens e mulheres indistintamente, e essa promiscuidade, unida ao furor báquico deu origem a todos os excessos de libertinagem. Denúncias caluniosas, testamentos falsos, envenenamento, desaparecimento de homens e mulheres eram sempre o saldo das festas orgíacas. A orgia era em ambiente privativo dos iniciados, e seus participantes tinham o dever de guardar segredo sobre as práticas a que se entregavam.
O lugar da reunião era o bosque sagrado de Simila, perto de Roma. Os homens, possuídos de delírio, profetizavam, entre fanáticas contorções. As mulheres, vestidas de bacantes, com os cabelos soltos, lançavam tochas ardentes no Tibre. O mais alto grau da perfeição báquica era não considerar nada vedado pela moral. Os tímidos e os envergonhados, que se negavam a acompanhar os demais, eram sacrificados. O número de iniciados era tão considerável que constituía um segundo povo, figurando entre eles mulheres e homens da mais alta sociedade. Em certa época, os iniciados passaram a exigir a idade mínima de vinte anos para os novos sócios.

As bacanais foram proibidas, sob as mais severas penalidades, como atentatórias à segurança do Estado. Figuravam entre as penas cominadas, a pena capital, sendo interditadas as festas não apenas em Roma, mas também em toda a Itália. Todas as províncias foram proibidas de celebrar bacanais. Mas a decisão não era drástica: quem quisesse promover uma bacanal, tinha que ir a Roma, fazer uma declaração prévia ao pretor da cidade e aguardar a permissão do Senado, que devia ser dada em sessão com a presença de pelo menos 100 senadores. Além disso, não se permitia mais nenhuma bacanal com mais de cinco pessoas; dois homens e três mulheres.
Mas apesar de todas essas providências oficiais de repressão, os devotos continuavam celebrando os ritos de Baco em bacanais mais ou menos clandestinas. E era tão grande o número de adeptos dessas orgias religiosas, que, no ano de 184 (a.C.), em Tarento, e em 181, na Apúlia, o povo promoveu uma rebelião para restaurar o direito de celebrar as bacanais. As bacantes eram senhoras da melhor origem patrícia, escolhidas entre as de mais ilibada reputação, pois as práticas da orgia religiosas constituíam não uma imoralidade, mas um ato de comunhão com a divindade.

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Sadismo no castelo
O célebre Marquês de Sade foi um continuador das bacanais romanas na vida real e na literatura. Promoveu orgias em seu castelo com a participação da mulher e de empregadas, foi acusado pela morte de uma prostituta à qual ofereceu um afrodisíaco, dentre outros eventos picantes, um dos quais a sua paixão explícita pela irmã da sua mulher. Preso na Bastilha à época da Revolução Francesa, por pressão de sua sogra, inconformada pela notícia de seu caso com a sua outra filha, Sade escreveu um livro monumental em que narra, dia a dia, a maior orgia de todos os tempos.
Segundo a lenda, ele o terminou em 37 dias, o que considero um absoluto exagero. A versão original foi perdida durante a queda da Bastilha, tendo restado apenas alguns dos 120 dias originais. São suficientes, no entanto, para consagrá-lo como um dos grandes escritores de todos os tempos, tal é a profundidade e qualidade literária na descrição de cenas escabrosas, chulas e até nojentas, às quais não renunciou, sob pena de não revelar por inteiro o caráter dos quatro vilões que promovem a maratona de sexo inimaginável que desenha com a maestria de um grande pintor.

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Os preparativos consomem mais de um ano, período em que os promotores, um dos quais é um bispo, enviam agentes aos quatro cantos da Europa à procura de “carne” para a sua bacanal. Não se trata de convidar nem de contratar. Os canalhas – assim Sade os descreve – exigem que lhes sejam trazidas, dentre outros personagens, virgens da idade de Emanuela Orlandi, a menina que sumiu no Vaticano, obrigatoriamente sequestradas de seus lares, raptadas em circunstâncias traumáticas.
Depois que todas as pessoas capturadas para servir a seus caprichos sexuais são escolhidas, partem todos para o Castelo de Silling, onde, assim que entram, as pontes são quebradas. Isolados do mundo, ninguém entra, ninguém sai, eles comandam um festival de aberrações que deram origem ao termo sadismo, doença dos que só conseguem alcançar o orgasmo com o sofrimento de seu semelhante.
Quatro prostitutas relatam suas experiências para serem replicadas pelos quatro libertinos. Uma delas relata em minúcias suas relações abjetas com vários clientes, dentre os quais muitos padres, no prostíbulo no qual ingressou aos sete anos. •

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