Los Quatro Amigos

Em bate papo, os cartunistas Angeli, Alcy, Laerte e Paulo Caruso revelam bastidores do jornalismo e de suas vidas pessoais e concordam com a blague do Glauco: “humor é a arte de fazer rir”
Por Alex Solnik e Camilla Schahin

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Rolou de tudo naquela noite. O Tiro-Liro, um simpático bar restaurante da Pompéia, em São Paulo, estava exibindo trabalhos de Paulo Caruso sob o mote “Black&White”. O comendador Angeli, que não garantiu se viria foi o primeiro a chegar, às oito em ponto, com Carol (que sempre lembra nomes e situações que Angeli se esquece nas entrevistas). Laerte, que estava combinadíssimo(a) esqueceu do compromisso, mas, alertado(a), compareceu. Sozinho(a). O Alcy e o Paulo Caruso que não têm títulos honoríficos vieram com suas respectivas, Bel e Maria Eugênia. Alguns uísques depois, começamos a conversar.

 

ALEX Onde se aprende a ser cartunista? Como vocês viraram cartunistas?

PAULO CARUSO Eu e o meu irmão éramos uma piada da natureza, certo? Depois, outra coisa é o seguinte: a imagem e o desenho, o fato de ser gêmeos, se dizia que um sempre morria, não aguentava, porque tinha problema de saúde, então a família foi superprotetora. E protegia como? Dando papel e lápis pra gente ficar desenhando, estimulava muito isso. E nós tínhamos um avô que era um pintor amador que ensinou a gente desde os quatro anos de idade a pintar óleos, pegava a mão da gente e fazia essas coisas… A partir daí a linguagem do desenho foi se impondo. E dominou as outras. Depois a gente começou a ler, mas a leitura veio num outro patamar. E desenho a gente faz desde os quatro, cinco anos e eu tenho esses desenhos guardados até hoje, coisa que foi de uma emoção, de um tesão pela linguagem que era um prazer total e que virou uma profissão, mas não foi uma profissão que eu tive que escolher. Eu tentei ser arquiteto. Sei lá o que eu ia fazer… engenharia…

ALEX Você tentou ser alguém, mas…

CARUSO …mas acabei virando eu mesmo.

CAMILLA Como foi a evolução do traço de vocês?

CARUSO Eu sempre achei os desenhos do Chico muito redondos e ele achava os meus muito quadrados. Ou vice-versa. Agora, os meus desenhos sempre foram cheios de panos de fundo, de subtexto, de várias figuras ao mesmo tempo, e o dele sempre foi o bandido dando um tiro, no outro era bala, no outro era o índio sendo atingido.

ALEX Mais enxuto.

CARUSO E até hoje essa diferença permanece. O desenho do Chico é mais em cima da imagem, ele escolhe uma imagem só. E eu sou o cara mais dos quadrinhos, da música e outras coisas mais dispersivas. Inclusive, eu falo mais do que ele… dá pra perceber, né?

ANGELI Bastante. O Chico só faz assim: “Hum… hum. Não, não, não é nada disso.”

CARUSO Uma vez eu estava indo com ele para o Rio de Janeiro, de carro. Fui até o Clube dos 500, ele não abriu a boca. E eu contando a minha história, separação da mulher, não sei que… Falei: porra, você não fala nada?! Eu não vou falar mais! E ele: “quê que você quer que eu fale?” Eu fui gêmeo do Chico há uns 20 quilos atrás, agora estou bem diferente.

ALEX Alcy, como é que você se tornou cartunista?

ALCY Eu comecei trabalhando. Quer dizer, eu sempre desenhei desde criança, tal, história parecida com a do Paulo e do Chico, mas sem o avô, né? Eu não tive avós. Eu mesmo que sou desenhista desde criança. Acho que criança sempre desenha bem. Você vai piorando depois.

ANGELI Não tem vergonha do que tá fazendo…

ALCY E tem criança que larga de desenhar e tem criança que continua. Eu continuei. Fui resolvendo os desenhos e tal, o pessoal estimulava, gostava de ver, então fui me achando naquilo. Aí fui trabalhar numa agência de propaganda, onde o pessoal mais velho, experiente, tal, também me estimulava, colocava o material na mão, guache, papéis importados, e eu fui desenvolvendo o desenho. Também me orientavam e tal. E ali a gente já foi percebendo, os caras mais velhos, que o meu lance era humor, que chamavam de caricatura, né? Era uma palavra que designava tudo que era humor.

CARUSO Qual foi o primeiro diagnóstico de que você era humorista e não desenhista?

ALCY Não, é que eu preferia. Havia uma série muito grande de ilustradores, um arquivo com americanos e europeus também, e eu me identificava mais com os que tinham humor. Isso com 16 anos. Eu me ligava muito em revista de piada. O grande estímulo, aí eu já tinha vinte e poucos anos, foi o Pif-Paf do Millôr… Foi uma descoberta pra mim.

CARUSO O Pif-Paf era um coluna que ele tinha n’O Cruzeiro. Ele foi demitido do Cruzeiro e aí os amigos se reuniram e fizeram um desagravo, fundaram essa revista. Era o Jaguar, o Ziraldo, o Millôr…

ALCY O Claudius…

CAMILLA E que durou quanto tempo?

CARUSO Durou oito números.

ANGELI Eu aprendi muito olhando todos. O meu primeiro desenho foi em 1971, publicado na revista Senhor, que era uma versão que tinha texto bom.

CAMILLA E você teve algum professor?

ANGELI Eu tive. O Alcy foi um dos meus professores.

CARUSO Meu também. Aqui tem uma diferença de geração. O Alcy é mais velho que a gente.

ALCY Eu sou seis anos mais velho que o Paulão e uns quinhentos mais que o Angeli.

CAMILLA O Ziraldo é de que geração?

ALCY O Ziraldo tem dez anos a mais que eu.

CARUSO Eu vou fazer 63…

ALCY Eu tenho meia nove… Já dá pra falar isso.

ANGELI O Alcy foi um grande professor, porque não tem escola.

ALCY Aquilo vem naturalmente, vem um encantamento que você tem pelo desenho do cara e você de repente tá reproduzindo umas coisas que o cara faz. Isso aconteceu comigo com relação ao Sampé, com relação ao Jaguar, ao Fortuna… e aí você vai encontrando a sua expressão.

CARUSO A escola era essa: o Jaguar, via Sampé, o Siné… os americanos…

ALCY O Jaguar desenhava igual ao André François. Já tinha um peso no desenho que era muito dele, mas você via o André François direitinho ali.

ANGELI O Crumb veio depois. É dos anos 70.

CARUSO Na época da Guerra do Vietnã, era o cara que desenhava a contracultura que acontecia naquela época.

CARUSO E que derivou para o sexo, drogas e rock’n’roll. O trabalho mais cáustico veio com as experiências dele com o LSD.

ALEX Quem o Crumb influenciou mais aqui?

ANGELI A mim ele influenciou bastante… bastante mesmo. Ao ponto de eu ficar preocupado. Eu tenho influência do pessoal do Pasquim, dos cartunistas mais antigos, sempre olhei e aprendi muito. Mas pra mim o Crumb foi uma porrada! Até por eu ser de uma idade ainda, era mais novo que vocês, então eu me influenciava por aquilo mais ou menos que eu vivia. Eu só não tomei etanol… O resto… Isso me mostrou que eu fazia parte de uma geração que estava trabalhando tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, mas era um jeito novo de fazer humor.

ALEX O Crumb pintou aqui no Linus, não foi?

ALCY Foi n’O Grilo, mas a gente já conhecia aqueles malucos, como é que se chamavam? Os Freak Brothers!

CAMILLA A revista MAD também é desse movimento.

ANGELI A MAD iniciou esse tipo de humor.

CAMILLA Tem vários traços na MAD, tipo ‘Spy vs Spy’, que têm a ver, não é?

ALCY Tem. Tem o Aragonés.

CARUSO O cara que influenciou muito a mim e ao meu irmão foi o Mort Drucker, que fazia aquelas sátiras dos filmes para história em quadrinhos. Pegava o 2001, no fim tem aquele baita monolito que é a origem da história do mundo, ninguém sabe direito o que é aquilo. “E para que serve issso?” “Essa é a vantagem de não saber, essa é a função dele… ninguém sabe para que serve essa porra!”.

ALEX A grande fase do cartum brasileiro foi durante a ditadura, não foi?

CARUSO Acho que não. Se você pensar, abolição da escravatura, o italiano lá, como é o nome dele? Ângelo Agostini. Depois do fim da monarquia, a luta pela República…

ALCY Teve aquele português também…

CARUSO O Bordalo Pinheiro. A história da imprensa começa com a caricatura sendo a bandeira das aberturas, do fim do império. Pra nós aqui. Na Europa é diferente. Porque aí tem uma sequência que vem desde a Idade Média. Em todos os momentos tivemos gerações e gerações de cartunistas.

ALCY Teve o J. Carlos, que é um gênio

CARUSO Nos anos 50 ele fez A Careta.

CAMILLA E o Amigo da Onça?

CARUSO O Amigo da Onça foi no Cruzeiro, o Péricles. No Cruzeiro também apareceram o Appe, o Borjalo, o Pif-Paf. O Millôr fez ‘A história do mundo segundo Millôr’ e a comunidade católica começou a protestar. O diretor do Cruzeiro demitiu o Millôr quando ele estava em Portugal. Ele soube que estava demitido lá. Mas ele começou como officeboy n’O Cruzeiro, levando matéria de um lado pro outro. Antigamente tinha esse negócio de gritar na redação, o editor gritava pro contínuo “Desce!” pra ele levar a matéria pra gráfica, que ficava no térreo.

ANGELI “Desce!” É o contínuo.

CARUSO Nesse tempo o trabalho saía da litografia pra impressão, clichê e tudo.

ANGELI Eu guardo uns clichês antigos.

CARUSO Eu também. E outra coisa: a gente fazia uns desenhos grandes que iam ser reduzidos, fotografados pra imprimir o clichê, então todas as imperfeições desapareciam. Agora você faz um desenho pequenininho e os caras ampliam, e aí vem todo o lápis, toda a sujeira, todos os meus defeitos e nenhuma das minhas virtudes.

ANGELI Eu acho que essa coisa do cartum, da geração do Millôr pra cá, que é o cartum moderno, é uma mistura de influências. Eu noto coisas em todos os cartunistas dessa geração, coisas que se grudam. Eu não faço caricatura, nunca fiz, mas tenho de alguma forma influência do Paulo, do Chico, que são mais velhos. Não tão velhos assim… Mesmo que não apareça no desenho, eu passei por ali, de alguma forma, como escola, e fiz questão também de criar uma outra escola que vem do cartum underground, que fala de sexo, drogas e rock’n’roll. E vejo hoje cartunistas novos repetindo coisas, pegando coisas que eu fiz, que o Paulo fez. Até o Adão. Tem gente que se influencia pelo Adão.

CARUSO Foi aí que tudo começou: com Adão e Eva… Agora, no fundo, eu acho que a tua charge política tem essa coisa, quer dizer, você continua fazendo sexo porque dá a impressão que os políticos tão sempre fodendo a gente!

ANGELI Exatamente.

ALCY O Angeli tem uma característica que eu acho interessante na charge dele. É que ele desenha a caricatura de fulano de tal sem se preocupar em fazer uma bela caricatura daquele cara. Faz bem no estilo dele, de acordo com esses caminhos que ele aprendeu no desenho dos outros caras, do Crumb…

ANGELI Eu não utilizo mais as caras dos políticos. É raro. Só quando é muito necessário o político estar ali desenhado. Eu pego muito mais o… É que eu pensei o seguinte: essa merda de corrupção, todos esses descalabros que o Brasil carregou, tudo isso aí, não é do político de hoje, não é do político de ontem, isso é uma forma de fazer política. Então, o meu problema é com a política, não exatamente com aquele cidadão de segunda categoria que rouba alguma coisa do dinheiro público. É a forma de governo. É o esquema.

CAMILLA Você ilustrou um caderno especial do mensalão na Folha.

ANGELI Foi. Eu fiquei meio envergonhado com aquilo, mas tudo bem.

CAMILLA O que você falou é verdade: o Lula tava ali, mas podia ser qualquer um.

ANGELI Agora o Maluf… o Maluf eu acho bom. É um cara que eu gosto de… de… e o Sarney…

CAMILLA Eles ajudam na caricatura, realmente.

ANGELI O Sarney… uma época ele tinha uma coluna na Folha. E eu sabia o dia em que saía a coluna dele. Eu sempre preparava uma piada em cima do Sarney. E aí, depois de um bom tempo, muito tempo, aliás, eu fui receber lá… eu sou… Carol, o que é que eu sou?

CAROL “Comendador.”

ALEX Como assim?

ANGELI Pelo meu trabalho, ganhei isso…

ALEX Do Sarney?

ANGELI Não, isso foi do Lula. E… por que é que eu estava falando isso?

ALEX Você falava do Sarney.

ANGELI Eu fui receber a comenda em Brasília. O Suplicy me levou pelo braço, “vamos conhecer o Congresso”, foi levando a gente e tal. De repente, ele abre a porta e essa porta era do gabinete do Sarney. Eu fiquei extremamente envergonhado de estar lá…

CAMILLA Quando foi isso?

ANGELI Foi há uns seis, sete anos. Ou mais, até.

CAMILLA Sarney presidente do Senado.

ANGELI Sim, do Senado. E eu tenho um ódio completo, porque pra mim é um dos últimos caras que vêm da Arena e tudo. Quando o Suplicy abre a porta, era o gabinete do Sarney. Eu não sabia o que fazer. Fui cumprimentar o Sarney e ele falou assim: “Você é o melhor… você é o melhor…” Eu falei: “Cacete… eu me fodi! Receber esse elogio do Sarney!? Pra mim foi… eu tive que dar meia volta e repensar meu trabalho todo.

CAMILLA Como político, ele deve falar isso pra todo mundo, “você é o melhor!”

CARUSO O Tancredo falou pro meu irmão: “Você é muito bom quando faz os outros!”

[Laerte chega]

CARUSO Vai tomar o que?

LAERTE Estou dirigindo… tem um suco de alguma coisa?

ALEX Laerte, como você começou a fazer cartum? Você faz cartum? Charge? Caricatura?

LAERTE Todos nós fazemos um pouco de tudo. A gente não tem essa coisa de europeus, de americanos, essa coisa da especialização, do vínculo com nichos. Você vê um quadrinista japonês, ele é um quadrinista japonês, tem aquela linha, aquela caminhada. Deve ter uma palavra japonesa pra isso… ado!

ANGELI Ado!

ALEX Onde você aprendeu a fazer cartum?

LAERTE Eu não aprendi, eu só não parei de desenhar. Só vim desenhando e copiando coisas e vendo muita revista, muito livro, coisas assim, chupando os desenhos do Paulo…

CARUSO E eu dele.

ANGELI Mas a gente tava falando disso aí, como é que surgiu.. Só pra fechar: eu acho que ninguém surge do nada. Chegar e falar: caiu na minha mesa um estilo pronto. É uma coisa que você vai aprendendo a fazer e se desafiando. De repente essa coisa de eliminar caricatura do político, eu achei que não conseguiria construir um cartum político sem a imagem do chargeado. E é possível. Você dá uma outra volta. Então, essa coisa da pergunta… a gente faz de tudo, né? E é muito bom fazer de tudo. São cartuns vivos, não tem um esquema. E quando começa a ficar esquemático, a gente sabe tem que dar um pulo e transformar.

ALEX Qual é o espaço hoje do cartum na imprensa?

ALCY O cartum… o cartum mesmo, aquele cartum?

ALEX Não, qualquer um.

ALCY Eu acho que o cartum-cartum não tem mais muito como. Sumiu.

CARUSO A revista Piauí publica cartuns.

ALCY Mas ela publica cartuns…

CARUSO …da New Yorker.

CAMILLA A revista SAX publica cartuns.

ALCY De vez em quando pintam alguns desenhos que não são bem cartuns. É desenho. E o que tem de humor é o humor do Laerte, do Angeli… que não são cartuns.

CARUSO Os cartuns da New Yorker são mais o comentário do desenhista sobre a situação familiar. Tem um que é a menina na webcam, no Facebook, com os peitos de fora, a mãe abre a porta e ela: “não se tem mais privacidade?!”

CARUSO O cartum está ligado à cultura inglesa, europeia. Daqui quem pode falar são eles dois (Angeli e Laerte): estão na Folha até hoje!

ANGELI Eu tô fazendo quase quarenta anos de Folha.

CAMILLA E olha que tem grande alternância de cartunistas ali.

ANGELI Tem.

LAERTE Mas a gente já marcou a diferença entre cartum editorial, cartumcartum e essas coisas.

CAMILLA Qual a diferença entre cartum e charge, por exemplo?

ANGELI Cartum é o desenho de humor atemporal. Não depende da coisa do momento. E eu gosto de misturar tudo isso.

LAERTE Charge é cartum editorial.

CAMILLA Então charge é cartum editorial não necessariamente político?

LAERTE É necessariamente político.

ANGELI Um comentário sobre sexo, por exemplo, também é político. CARUSO É comportamento, é cultura, pode ser tudo, entendeu? É um comentário factual, alguma coisa relacionada ao momento que está se vivendo.

LAERTE Charge quer dizer carregar. Carga… da brigada ligeira.

CAMILLA Os franceses, que têm muito essa cultura de cartum, é que deram o nome Charge, então?

LAERTE Pode ser inglês…

CAMILLA Verdade.

CARUSO Italiano… carregare… cartum em inglês é com dois “o”. São temas universais.

LAERTE Cartum para os americanos é desenho animado. Deixar o bebê em casa com a babá hispânica vendo cartuns.

ALCY Mas é que no Brasil tá um momento em que os próprios cartunistas convencionaram, os caras antes da gente, o Ziraldo, o Jaguar, Fortuna, tal, o Millôr, chamar de cartum uma coisa.. desenho de humor… uma coisa que não fosse marcando um determinado fato, determinado momento e que não tivesse a cara necessariamente de alguém. Acho que era por aí.

CARUSO A charge fica meio como uma ilustração encomendada pro momento. E o cartum é uma coisa universal.

ALCY E até foi aportuguesado o cartum. No Houaiss, vem escrito assim com “u-m”

ANGELI Foi uma batalha do Ziraldo.

CARUSO Kartum é uma cidade iraniana, assim como Nanquim é uma cidade chinesa.

ALEX Vocês acham que a última grande fase do cartum brasileiro tem a ver com o Pasquim? Havia um veículo para isso, e hoje não tem.

LAERTE O Chico Buarque deu uma entrevista dizendo que a canção como a gente conhece dava a sensação de ser algo do século 20. Não que tivesse morrido, que fosse proibido fazer canções, mas ele achava que a canção era uma linguagem típica do século 20 e que o século 21 apontava para novas direções: hip-hop, rap, não sei quê. Discursos diferentes que também convivem com outro tipo de autoria. Todas essas discussões, ele disse, são de época de mudanças mesmo. Nós estamos vivendo uma mudança. Eu fiz uma transposição desse discurso pra minha área e penso assim também: acho que cartum é uma coisa que hoje está meio restrita a salões que teimam em sobreviver por conta de outras dinâmicas que não têm a ver com a necessidade jornalística, necessidade de expressão, que eles costumavam atender no século 20, no tempo da ditadura, tal e coisa. Eu acho que historicamente é uma coisa colocada num contexto que já passou. E que a gente está vivendo uma transição para outro lugar, para outra direção, não sei bem qual. A gente pode falar de grafite, fazendo um paralelo com o hip-hop. O mundo do grafite, o mundo da tatuagem…

CAMILLA É, o grafite faz uma crítica também.

CARUSO Hoje tem blog, site, é possível até trabalhar com animação. Agora, eu acho que no fundo o Pasquim foi muito importante por causa da ditadura. Tanto é que, à medida em que veio a abertura, a coisa foi se esvaziando e os grandes jornais foram assimilando essa linguagem pra eles. Agora estamos vivendo um outro momento, em que os jornais estão vivendo uma puta dificuldade econômica e estão botando todo mundo pra fora, pessoal de ilustração, de cartum, porque a receita está caindo e os caras preferem investir na palavra – essa briga da palavra com a imagem que sempre houve, agora eles estão beneficiando o texto e a foto. O Estadão botou todo mundo pra fora, a Folha também botou uma parte das pessoas pra fora, o Globo tem meu irmão que está fixo lá.

CAMILLA Por isso a Folha faz estes concursos pra descobrir novos talentos…

CARUSO Eu tentei voltar pra Folha, até falei com o Sergio D’Ávila quando ele estava assumindo. Ele falou: “nós vamos pegar os jovens para um dia eles se transformarem em Paulo Caruso.”

CAMILLA É, sai mais barato criar do que comprar pronto.

CARUSO Aí, uma menina falou: “pô, você deveria ter dito o seguinte: é bom você publicar antes que o seu jornal acabe.” Que os jovens vão brigar pelo digital…

ALCY Mas houve um tempo em que era moderno, na imprensa, ter mais desenho, não é verdade? Mais imagem. As fotos eram maiores, os desenhos eram em maior quantidade, na época do Jornal da Tarde. O Jornal da Tarde foi uma coisa que revolucionou.

CARUSO Na imprensa escrita, as melhores publicações foram aquelas em que houve casamento de linguagem entre imagem e texto: Jornal da Tarde, Bondinho, Pasquim… Depois, os grandes jornais foram pegando isso. Agora você abre o Estadão e tem quatro páginas seguidas de texto!

ALCY A linguagem escrita era mais solta e com mais desenhos também. Mais imagem, mais foto. Foto de página inteira, capas do Jornal da Tarde com fotos de página inteira foram várias.

CARUSO O garoto chorando na Copa de 1982… a passeata dos 100 mil…

CAMILLA Agora foto de página inteira é a do anúncio na primeira página.

ALEX Vocês acham que a ditadura é mais propícia para charge do que a democracia? 

CARUSO Não, eu acho que melhor é a liberdade.

ALCY Exatamente.

CARUSO Nós estamos vivendo uma revolução tecnológica. Além da ditadura, não sei que…

ALEX Mas na ditadura a produção de cartuns era muito maior e tinha mais espaço, apesar da censura. 

CAMILLA Como é que era a censura com desenho?

ANGELI Ah… muita gente descobriu alguns truques ali… Por exemplo, não se podia desenhar general. Só começou a poder traçar um general na época do Geisel. Final do Geisel.

LAERTE Ou antes do Médici também.

CARUSO O Médici passou para a história sem nenhuma caricatura dele.

ANGELI Exatamente.

CAMILLA Quem fizesse ia preso?

CARUSO Os jornais não deixavam publicar.

ANGELI E a gente utilizava o artifício de usar uma cartola, uma pessoa com cartola, que era o poder.

CAMILLA Virou um código?

ANGELI Era um código. Agora, eu acho que tinha muita piada simplesmente de ataque, sem humor. A piada que funcionava para aquele momento. Se tirar de lá e colocar em outra situação, ela é fraca.

ALCY A piada “tô com fome”!

CARUSO É aquela coisa. “Eu tô com fome” e o estômago roncando.

ANGELI Hoje a produção é muito mais rica. E mais profunda. Os assuntos são mais profundos.

CARUSO Mas eu acho que, assim como acontece com a leitura, vai havendo uma queda em função dessa agilidade da informação. As pessoas estão com mais dificuldade de atenção, você vê textos grandes, então isso vai migrar para uma outra coisa e o desenho aí vai sair ganhando. Eu tô sentindo a evolução do humor numa linha cada vez menos politicamente correta, cada vez mais agressiva, porque isso é o que a juventude que não teve nenhum sofrimento da ditadura pode praticar. Então, tanto essa coisa do stand-up, da Porta dos Fundos, todos os textos que estão acontecendo, têm uma liberdade absoluta e a gente não está acostumado com isso. A gente tem uns parâmetros diferentes. Eu estive num encontro de humor na Normandia e faziam cada piada que eu ficava chocado. Uma delas era a Carla Bruni dando à luz e em vez de sair um moleque está saindo do outro orifício merda e o médico olhando assim: “É a cara do pai!” Que é o Sarkozy. É uma coisa assim, desumana do ponto de vista da mulher, do político, de tudo.

ALEX Você censuraria?

CARUSO Eu falei pra eles: vocês estão me dando a sensação de que eu sou a favor da censura, a favor do aborto, mas certas ideias não devem vir à luz! Porque a postura deles é essa bandeira: chega de politicamente correto! O que importa é a liberdade! Isso está caminhando. A gente tá vendo, por exemplo, o Lobão, influente manifesto nessa direção. Já que acabou o compromisso com o que era a ditadura, pode falar o que quiser, meter o pau em quem quer que seja. Eu acho que a gente vai ter essa derivada também. Só que nós estamos ainda um pouco atrás. A imprensa brasileira é muito mais cordata e o espaço que a gente tem na imprensa é também muito restrito às edições. Por exemplo, eu fiz um desenho na revista Época que o editor achou lindo, que era quando teve aquela edição do Charlie Hebdô em cima dos Intocáveis… eles misturaram o curador negro com o debilitado branco e um muçulmano levando um judeu. Quando eu vi essa edição do Charlie Hebdô eu fiquei chocado porque era absolutamente agressiva, dizendo que Maomé dava a bunda. Era pra provocar mesmo a reação da religião porque isso é que ia vender jornal. E eu fiz o desenho que era o cara do Charlie Hebdô, que depois posou pra fotografia, com o Charlie Hebdô como se fosse o escudo dele e o bico de tinta nanquim cutucando o muçulmano e caindo no abismo, porque ele estava fazendo isso: estava jogando a credibilidade do Charlie Hebdô pelo abismo em função da provocação que ele achava capitalisticamente interessante. Aí, o editor da revista Época falou: lindo, ótimo, mas nós não vamos publicar. Porque ele não queria saber de conflito religioso na edição dele. Isso é um comentário crítico a respeito do que está acontecendo. Então, é uma coisa meio velada, a gente fica meio restrito, a última palavra é sempre do editor. Eu sempre falei: se você quer ter liberdade, compre o jornal.

ALEX Como é na Folha? Vocês são vigiados? O desenho passa por alguém que pode recusar?

ANGELI Pelos meus quarenta anos de Folha de S. Paulo…

LAERTE Quarenta anos… do alto desses cabelos brancos…

ANGELI Nesses quarenta anos de Folha de S. Paulo eu fui muito pouco censurado. Mas muito pouco. E isso aconteceu sempre numa época mais distante. Trinta anos atrás, mais ou menos, tinha uma censura aqui, outra lá. E eu sempre pensava: bom, eles aceitaram essa charge, então vamos pesar um pouco mais na de amanhã. E sempre foi muito bem aceita. Teve coisinhas, assim, bestas. Uma vez aconteceu que fiz uma tira que era um cara dentro do seu apartamento, o apartamento completamente ensanguentado, com pedaços humanos caídos ali, e ele falando assim: vai, mulher, agora limpa tudo isso! Ele tinha acabado de espancar a mulher. E aí eles pediram pra não publicar. Eu falei: mas é só uma tira, não estou apontando qual o motivo. E eles falaram assim: é que aconteceu ontem, um cara espancou a mulher e matou a facadas. Então isso aí foi uma adequação. Eu publiquei a tira dois dias depois.

CARUSO Essa é uma característica nossa: nós fazemos um trabalho profético. A gente tem que adivinhar o que vai acontecer.

ALEX Laerte, com a tua transformação, mudou você, mudou teu desenho, você se vestindo de mulher e tal, você teve algum tipo de censura na Folha?

LAERTE Não, nenhuma. Bom, são duas transformações diferentes. Uma pessoal, outra no meu trabalho. Que se deram em tempos mais ou menos parelhos… Mas pelo contrário, a Folha me deu apoio total o tempo inteiro. Eu perdi acho que todos os outros jornais onde publicava tira.

CAMILLA Tá brincando!

LAERTE É, o Zero Hora parece que tá querendo voltar, não sei.

CAMILLA Por causa da tua transformação pessoal?

LAERTE Não, depois da mudança na tira, eles falaram que tinha perdido o humor, que não era o que eles tinham contratado.

ALEX Mas é que nas tiras você mostra muito a transformação.

CARUSO As tiras têm personagens absolutamente… tem um chinês recebendo mensagem não sei de onde…

LAERTE Alguns jornais acharam que isso estava muito longe da expectativa que eles tinham quando contrataram a tira. Eles não estão errados, não. Estão certos. O que eu quero dizer é que a Folha jamais questionou isso. Nunca me falou: isso aí tá muito louco!

ANGELI Na Zero Hora, uma vez, o personagem Meia Oito começou a sair lá e tinha o nanico que era a bichinha que ficava atrás e tal e aí os caras devolveram. Eu falei: pô, mas já saíram quatro ou cinco tiras, tá claro como era o personagem. E o cara: eu pensei que ele ia se recuperar… Eu falei: não, o personagem é gay.

ALEX Mas não tem nenhum problema com personagem gay na imprensa brasileira. Tem?

ANGELI Não, eu sempre mexi com isso, sempre gostei de mexer com essa coisa de comportamento atual, sexual…

CAMILLA Eu só vejo coisa boba na TV em relação a homossexual.

ANGELI É, mas está mudando também…

CAMILLA Quando tem personagem gay em novela da Globo é sempre uma caricatura.

ANGELI Eu li uma matéria na Folha, um cara falando mal, porque o gay não é entendido, um cara jocoso…

ALEX A onda do politicamente correto atrapalha a caricatura?

LAERTE Eu acho que é uma questão superada. É um debate escorregadio, a gente acaba discutindo o que não é para discutir. Isso que o Paulo mencionou é super acurado. Existe uma diferença de visão de uma geração que não viveu as lutas políticas, e agora se vê diante de partidos frágeis, movimento social…

ANGELI Ideologias embaralhadas, né?

LAERTE Aí, surge uma geração de humoristas forte influenciada pelos norteamericanos. O que se faz hoje em termos de liberdade de expressão nos Estados Unidos também é assustador.

ALEX Quando o Glauco apareceu também foi assustador?

CARUSO O Glauco apareceu com um desenho no Salão de Piracicaba. Ele tinha compromisso com a risada. Um dia, nós fomos fazer uma entrevista na TV Bandeirantes e tinha um câmera bravo, estressado pra cacete, uma pergunta pra cada um, vamo lá, nós vamos gravar agora. O que é o humor pra você? O Glauco: humor é a arte de fazer rir.

ANGELI Na Hebe Camargo ele falou isso também. No primeiro dia do Glauco na Folha, ele foi na redação – que fui eu que falei, “vai lá que tem espaço, tô fazendo uma página lá, posso colocar seus desenhos”, ele falou “legal” e tal – e foi vestindo uma touca de feltro com florzinha em cima, era hiponga completamente. Chegou na redação e falou “vou até o banheiro” e tal. Deu um tempinho, começou um barulho ali. Os seguranças pegaram o Glauco com o maior baseado no banheiro… foi uma tortura pra livrar a cara do Glauco.

CARUSO Que cartunista conseguiria levar o dono do jornal, Otavinho Frias, para experimentar o Santo Daime no sertão?

ALEX Como foi essa história?

CARUSO O Otavinho queria fazer uma matéria sobre o Santo Daime e foi experimentar no Amazonas.

ANGELI O Otavio queria fazer um livro ou uma grande matéria sobre o Daime e falou com o Glauco. E foi. Ele escreveu uma matéria enorme, acho que foi pra Bravo… Pelo que o Glauco me disse, o Otavio ficou encantado.

ALEX Quais são os personagens caricaturáveis hoje?

CARUSO Pra mim, todos! Inclusive você!

ANGELI Eu acho que todos.

LAERTE O que quer dizer “caricaturáveis”?

CARUSO Pra mim, o mais importante é a expressão, não o cara em si.

ALEX Os mais caricaturáveis, eu quis dizer… Por exemplo: o Maluf sobrevive até hoje.

ANGELI Essa coisa das religiões está muito presente…

LAERTE Pastores…

ANGELI Não só pastores evangélicos, mas a igreja mesmo. A igreja católica.

ALEX E o Joaquim Barbosa?

CARUSO Eu já fiz.

ANGELI Eu também. Virou personagem. O cachorrinho preto dizendo: vamos botar o preto no branco! E o outro: preto, não, afrodescendente. E o cachorrinho preto dizendo: pode me chamar de Joaquim Barbosa. E o branco: E eu voulevando-uísque, que é o Lewandovski. O último desenho que eu publiquei na Época foi um cabo de guerra entre o Supremo e o Congresso. Depois do mensalão, o STF virou Big Brother Brasil do STF, porque os caras deram o máximo de si, isso começou a ser um paradigma de atuação. Tanto o Fux quanto o Joaquim Barbosa começaram a se jactar de si mesmos. Essa coisa está intragável. E é curioso porque pela primeira vez a gente sabe. No meu caso, antigamente, quando tinha julgamento de crime, não podia ter foto, tinha que ter desenhista, cheguei a fazer aquele Mateus Meira que atirou no cinema. Agora um juiz depois do Mensalão fez questão que o julgamento fosse televisionado pra mostrar a performance dele como juiz e a dos advogados. É constrangedor porque… o papel do réu é não olhar pra lado nenhum, ele tem que olhar pro fundo, porque ele pode ser julgado por qualquer gesto que fizer.

CAMILLA Não falamos de Maurício de Sousa. Primeiro quadrinista Imortal pela Academia Paulista de Letras.

CARUSO O Mauricio de Sousa é o Paulo Coelho das crianças.

LAERTE Eu acho o Mauricio de Sousa muito importante. Eu comecei a aprender a ler com os gibis dele e do Ziraldo.

CARUSO O Laerte tem essa formação na linha do desenho americano, meio naturalista, não sei como é que é a tua educação, quem foi o teu mestre… quem que você chupou?

ANGELI Eu não fui…

CARUSO Mas a gente, por exemplo, depois do Mort Drucker foi o David Levine, depois veio o Trimano e o Chico ficou empolgado pelo Trimano, depois o Sabat…

[Depois de muita conversa, cada um dos desenhistas foi convidado a desenhar seu autorretrato ali na mesa, ao vivo e a cores. O Laerte teve a manha de fazer a sua boca com um batom que tirou da bolsa. O desenho passou de mão em mão e foi comentado pelo Angeli.]

ANGELI (ao Laerte) Você já pegou o Laerte feminino aqui, né?

LAERTE Eu sou mulher, cara!

ANGELI Eu sei. Mas demorou pra você…

CARUSO Mas você não fala como mulher, você fala como você.

LAERTE Eu falo como mulher! Como você acha que mulher fala?

CARUSO Você não está afeminado.

LAERTE Eu sou afeminado! Afeminada.

CARUSO O cabelo e as unhas, sim, mas, falando…

ANGELI Eu acho que o Laerte tem uma certa trava… ele é apaixonado por mim.

LAERTE A gente vai ter que resolver isso um dia… e acho bom ir logo porque a gente tá ficando “véio”.

 

 

CONFIRA: Cartuns históricos de Storni e Di Cavalcanti, um especial em homenagem à Glauco, e mais capas e páginas do PIF PAF, a revista de humor editada por Millôr Fernandes que antecedeu o Pasquim e influenciou todos eles