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Graphic Novels, os quadrinhos para adultos, estão em alta. Até Maurício de Sousa aderiu
Por Ricardo S. Cruz | Imagens Divulgação

O rótulo graphic novel ficou popular no fim dos anos 1970, quando o quadrinista Will Eisner o estampou na capa de seu álbum Um Contrato com Deus com o intuito de separá-lo dos quadrinhos infantis. A grosso modo, podemos entender as graphic novels da mesma forma que a literatura, com sua gama de temas e estilos, na versão quadrinhos. “Precisam ter começo, meio e fim em um volume só. Normalmente têm roteiros mais trabalhados, mas não precisam ser só para adultos”. Quem fala é Sidney Gusman, criador da Graphic MSP, o selo de graphic novels de Maurício de Sousa. Há quem ache o termo uma distração, ou jogada de marketing para glamourizar certas publicações. Há quem o considere importante para promover os quadrinhos para um público mais amplo.

 

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Mas mais interessante do que entrar nessa discussão é perceber que as graphic novels hoje são um filão importante do mercado editorial. Têm espaço exclusivo nas livrarias e cada vez mais atenção da mídia. São também praticamente story boards prontos para virarem filmes: Sin City, Marcas da Violência, Watchmen, 300, V de Vingança, Old Boy, American Esplendor, Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres, entre tantos outros são baseados em graphic novels. E a lista só aumenta.

Embora Eisner lhe tenha dado certa notabilidade, a expressão só ficou famosa de verdade na segunda metade dos anos 1980, graças à aposta da editora americana DC Comics em títulos que se tornariam grandes êxitos de público e divisores de águas no gênero: V de Vingança e Watchmen, escritos por Alan Moore, e Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller – talvez a obra mais aclamada e influente do período.

Uma década mais tarde, quando a internet colocou o mundo todo em contato, o mercado dos quadrinhos ganhou um público novo sedento por novidades. Essa lacuna acabou preenchida principalmente por artistas independentes, cujos trabalhos mais experimentais e fora dos padrões comerciais nunca tiveram espaço fora da periferia do mainstream. Nas mãos deles, as graphic novels ganharam um território muito mais amplo do que antes.

No premiado Retalhos (2003), por exemplo, Craig Thompson faz uma tocante autobiografia de sua juventude em incríveis 600 páginas. A obra criou tendência: hoje, as autobiografias são quase um subgênero do estilo. Persépolis, Fun Home, Cicatrizes e o brasileiro Memória de Elefante (do artista plástico Caeto) são alguns exemplos notáveis. Outra menção honrosa vai para o fabuloso Asterios Polyp (2009), de Dave Mazzucchelli, a respeito de um arquiteto arrogante que perde tudo e passa a viajar buscando um novo sentido para a vida. O que Mazzuccheli faz é poesia em linhas gráficas, entortando brilhantemente a narrativa convencional e jogando o tempo todo com formas e cores. “Um tratado de estética, design e ontologia”, escreveu o New York Times. Não é exagero.

No Brasil, essas graphic novels modernas, a maioria estrangeiras, foram chegando a partir de meados da década passada, publicadas principalmente pelas editoras Conrad e Devir. Hoje o Brasil também tem vários autores de peso. Mas boa parte deles ganhou espaço primeiro lá fora. Daytripper, dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, precisou entrar na lista dos mais vendidos do New York Times antes de vir para cá, pela Panini, em 2011. O fabuloso álbum de Rafael Grampá, Mesmo Delivery, inspirado nos contos surreais da série de TV Além da Imaginação, também estreou primeiro nos EUA.

Provavelmente a graphic novel nacional mais alardeada dessa fase recente seja Cachalote, de 2010. O texto é de Daniel Galera e a arte de Rafael Coutinho, filho do cartunista Laerte. Saiu pelo selo Quadrinhos na Companhia, da Companhia das Letras, e teve um preview publicado com toda a pompa pela revista Piauí. As seis histórias paralelas contadas no livro ganharam prêmios importantes da área e abriram ainda mais as portas para os autores nacionais.

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Turma da Mônica repaginada
O primeiro flerte de Maurício de Sousa com as graphic novels aconteceu em 2010, com a coletânea MSP 50, um compilado de histórias autorais curtas em homenagem aos seus 50 anos de carreira. O álbum foi sucesso de crítica e rendeu outras duas edições. “Foi graças ao sucesso do MSP 50 que fomos em direção às graphic novels”, lembra Sidney Gusman, que encabeçou o projeto e insistiu que Mônica e cia renderiam releituras interessantes para outras audiências. “No começo, o Maurício tinha dúvidas, mas ele logo topou a ideia. Comecei, então, a pautar os próprios autores do MSP 50. Claro que todos toparam na hora”.

Danilo Beyruth inaugurou o selo Graphic MSP assinando roteiro e arte de Astronauta – Magnetar, em que reimagina o personagem clássico numa abordagem psicológica sobre solidão e a sensação de isolamento no espaço. O sucesso foi enorme. O álbum saiu também na Alemanha, Itália, França e Espanha. A ideia deu tão certo que a coleção logo ganhou mais edições: Laços, no traço delicado dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, sobre a tocante amizade dos personagens da turma enquanto saem em busca do cachorro do Cebolinha, Floquinho; e Chico Bento: Pavor Espaciar, uma comédia deliciosa em que Chico, Zé Lelé, o porco Torresmo e a galinha Giselda são abduzidos por extraterrestres. Os desenhos e o roteiro são do afiadíssimo cartunista Gustavo Duarte.

Atualmente mais seis novas graphic novels estão em produção. “Tenho uma lista de mais de 30 desenhistas que quero que participem. Gringos, inclusive”, revela Sidney Gusman. O mais recente lançamento, desde novembro nas livrarias e bancas, é estrelado por Piteco e desenhado e roterizado pelo paraibano Shiko: “é uma aventura paulada, estilo Conan. Bichos gigantescos, amor, humor…”, ele dá uma dica do que esperar. O sucesso desse tipo de quadrinho tem ajudado a diminuir um ranço de preconceito que ainda pode intimidar uma pessoa adulta a ler uma história ilustrada. Independente da discussão acerca da necessidade do rótulo, todos concordam que as graphic novels, no fim das contas, são as boas e velhas histórias em quadrinhos em uma de suas melhores fases.

 

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Em Batman – O Cavaleiro das Trevas, Frank Miller não apenas reinventou o Homem-morcego mas também foi o responsável pelo primeiro grande sucesso comercial de uma graphic novel de super-heróis

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No clássico Watchmen, Alan Moore imagina como seria se super-heróis existissem no mundo real