Estilista Casual

Ricardo Almeida queria correr de moto. Mas sua pista era mesmo nas passarelas. S.A.X. Magazine conversou com um dos maiores estilistas brasileiros da atualidade, e responsável pela elegância da maioria dos poderosos e famosos do país
Por Edgard Reymann | Fotos Divulgação

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Ricardo Almeida está com as baterias arriadas. Baterias de suas motos, que fique claro. Já faz um bom tempo que elas estão encostadas em sua garagem, pois seu proprietário anda um tanto assoberbado com os afazeres que assumiu nos últimos anos. Não é fácil ser Ricardo Almeida hoje. A marca, de enorme sucesso, extrapolou a linha de roupas sob medida para homens.
Além de ter de dar conta de oito lojas próprias pelo Brasil, um atelier em São Paulo, uma fábrica no bairro paulistano do Bom Retiro, num complexo de atividades que incluem alfaiataria, linha esporte de jeans, camisa polo, couro, tricô, e sapatos, arrumou tempo este ano para criar uma coleção feminina, lançar tênis de couro masculinos e um chocolate. Sim, uma linha de chocolates gourmet, artesanais, recheados de frutas tropicais típicas brasileiras.
Trabalhando 14 horas por dia, atualmente, Ricardo Almeida ainda encontra fôlego para curtir a noite. Sim, ele é um dos sócios da B4, badalada casa noturna de São Paulo. E pensar que tudo isso começou lá nos anos 1970, quando Ricardo saiu de casa certo dia, em busca de um patrocinador para bancar sua possível carreira de motociclista. Se a carreira nas pistas não decolou, ele voltou para casa com o emprego de representante de vendas de uma confecção. A partir daí interessou-se pelo ramo e passou a se dedicar à modelagem.
O resto é história, que está muito viva inclusive nas novelas, embora ele não acompanhe, pois não costuma assistir televisão. Mas desde ‘Explode Coração’, em 1995, quando vestiu Edson Celulari e mudou o jeito dos executivos brasileiros se vestir, até hoje em ‘Avenida Brasil’, vestindo os ternos de Cadinho, pândego personagem vivido por Alexandre Borges, o estilista Ricardo Almeida continua a influenciar a moda no país.

S.A.X. teve o prazer de acompanhá-lo durante uma tarde no seu atelier localizado no elegante bairro de Vila Nova Conceição. É ali que ele recebe seus principais clientes da alfaiataria, segmento que lhe deu glórias além de nossas fronteiras. Um pouco tímido, reservado, mas vestindo-se de forma bastante descontraída, com jaqueta de couro, camiseta e tênis, tudo de fabricação própria, Ricardo demonstra uma notável autoconfiança e um exemplar senso ético. Ricardo faz de seu atelier a extensão de suas paixões, não só pela alfaiataria. Exímio jogador de pebolim, tênis de mesa e sinuca, ele mantém ali no subsolo um espaço surpreendente com todas as mesas de jogos, que ele usa para relaxar e ampliar seus laços com clientes, muito deles famosos como Neymar e o ex-presidente Lula.

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Você começou numa época em que um profissional do seu ramo era chamado de alfaiate. Como vê essa profissão e como situa o seu trabalho?
Sou um estilista dentro da alfaiataria. O alfaiate tira sua medida e faz a sua roupa, mas é diferente porque não faz um estilo. O estilista muda o tamanho da gola, da lapela. O alfaiate apenas executa o que o cliente pede. Qual o problema aí? É fazer só o que eles pedem. Você já viu algum homem mudar? Depois de dez anos ele está vestindo a mesma roupa. Só que ela vai ficando velha, datada. Os clientes do alfaiate não deixam eles mudar. O homem é difícil, se está acostumado com uma coisa, pede pra fazer igual sempre.

E como conseguiu se posicionar como estilista?
Como construí um nome, consigo me posicionar e dizer que uma mudança é bem vinda. Meu nome é forte, se não fosse eu não estaria fazendo paletó de três botões na época em que só se usava jaquetão.

Se eu peço um jaquetão e você quer me convencer do contrário. O que diria?
Eu posso fazer o jaquetão, mas não como antigamente. Pode ser com um transpasse menor, a lapela mais estreita. Eu tenho um recurso para fazer diferente. E o jaquetão, para ficar bonito, tem que estar o tempo todo abotoado. Mas o clima brasileiro não é apropriado para o jaquetão. É mais para o clima europeu, mais frio. Mas se ele quiser mesmo assim, lógico que eu faço, só mexo no estilo.

Nesse caso, entra aí o seu conhecimento?
Sim, mas também a intuição. É muito mais intuição. É como músico. Tem o que aprende a tocar e outro que praticamente já nasce sabendo. Tenho um filho de 7 anos que, com 3, já percebia que eu estava de roupa nova e dizia se combinava ou não. Ele já veio com o chip. (risos)

Há pouco tempo, falou-se abertamente que a profissão de alfaiate está acabando. Acredita nisso?
Se ele for criativo, ele pode ir além de alfaiate. Se não, continua sendo alfaiate mesmo. Não há nada de mal nisso. É como em todas as profissões. Se você tiver uma formação melhor, mais informação, mais mercado você tem. Sou muito conhecido na parte da alfaiataria. Mas tenho jeans, fábrica de tênis, camisa polo, camiseta, tenho muitos produtos que não são de alfaiataria.

É onde tudo começou, não?
Sim, com paletó, calça e camisa. Mas também fazia jaqueta e sapatos.

Acha que os anos 1970, com toda a quebra e ruptura de padrões, influenciou o seu trabalho?
Sim, mas naquela época, todo mundo ainda usava terno para trabalhar, era difícil até um executivo usar jeans. Nas lojas de roupa masculina, o carrochefe era o terno. Fiz uma confecção para atender o homem. Mas tinha uma coleção para a molecada, mais descontraída. No inicio foi mais para a área executiva. Mas comecei apostando nos ternos de linho, um tecido que ninguém usava. Não era um terno careta, era moderno para a época.

Hoje, você tem outras coleções, para outros momentos do dia-a-dia do seu cliente. É possível fazer algo diferente até nessas áreas?
Eu posso dizer que gosto de arroz com feijão, mas procuro sempre fazer melhor que o arroz com feijão do vizinho. Sempre procuro fazer o melhor que puder. Esse é o meu princípio. Procuro ser perfeccionista. As polos que a gente fez são muito diferentes do que você já vestiu. Inclusive das importadas. A gente escolhe tecido, modelagem, cor… Montei uma fábrica só para fazer meu tênis. Ele é super macio, mas tem cara masculina. Ele é de couro por fora e por dentro. Isso te dá muito mais conforto. Eu brigo
para ficar melhor que tudo. Posso errar, claro. É como calça jeans. Você pode fazer um tipo de processo de lavagem que altera a modelagem. Aí você vai dizer que isso também acontece com as grandes marcas. Mas na minha isso não pode acontecer. Ou eu compenso na modelagem, defino desde a lavagem até a modelagem final. O meu fornecedor executa como eu defino, tenho controle sobre a modelagem.

Esse processo de acerto leva quanto tempo?
Isso pode levar anos.

Então você não vende esse produto?
Ele tem que ter um mínimo aceitável, mas eu nunca estou contente. Então, vou melhorando. É uma marca que tem meu nome, se eu fizer uma coisa ruim, isso vai me causar problemas. A marca que tem o nome da pessoa é sempre mais bem cuidada, como a do Giorgio Armani por exemplo.

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Na questão dos tecidos, continua com os italianos?
A maior parte dos tecidos, paletó, calça, ainda uso os italianos, que têm melhor acabamento e padronagem.

E os chineses?
O que acontece hoje? Os italianos levam o maquinário para a China e produzem quase igual ao que faz na Itália, e vendem por um terço do preço. Não tenho nada contra, são ótimos tecidos. Ralph Lauren produz na China, a Burberry. A China melhorou muito, tem mercado interno forte.

Pensa em levar sua marca para lá?
Prefiro não ir. Nada contra, mas eu tenho um problema com comida. Gosto de tudo simples, nada diferente. Nada muito louco ou diferente. (risos) Enfim, não moraria lá.

Pode-se falar em moda brasileira além do biquíni?
Se você falar em alfaiataria, a gente segue uma tendência mundial. Tenho minha assinatura, não é o que a maioria faz. Prefiro deixar o homem mais jovem, longilíneo… Mas não dito moda lá fora. Aqui tenho força para fazer algo diferenciado.

Ainda aposta no linho? Uma coisa mais brasileira, tropical?
O linho é muito forte. Na verdade, o linho não é uma coisa brasileira. Tem o tecido rami, que é grosso. A planta do linho, não temos aqui. Passamos uma época em que o linho era a febre, o tecido top.

Os clientes pedem o linho?
Às vezes pedem, ou eu sugiro. Se é um casamento na praia, sugiro o tecido, em vez de lã fria…

Já lhe fizeram pedidos esquisitos?
Às vezes, mas eu induzo a pessoa a mudar. Vários casamentos as pessoas pedem fraque. Isso é algo que me deixa constrangido, por vários motivos. Primeiro que o fraque é morning dress, roupa para ser usada de dia. Casamentos de fraque são de dia. Outro problema é que os padrinhos acabam alugando o fraque. O noivo até pode pedir um fraque, ainda que seja uma roupa que ele só vai usar uma vez. Mas os padrinhos alugam, e aí nem sempre fica bom… Um terno, ele vai usar outras vezes, então acho mais interessante o terno. Ou mesmo um smoking, que é roupa de festa.

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Costuma orientar?
Sim, há pouco tempo eu aconselhei a não fazer fraque. Ele foi pesquisar e viu que eu estava certo.

Já pediram jeans no casamento?
Sim, mas fiz um jeans fininho, tipo de camisa, como se fosse alfaiataria. Você precisa realizar o sonho da pessoa de um jeito que ela se sinta realizada, sem passar por constrangimentos.

Seu clientes acabam se tornando confidentes, não?
Quem me procura, espera que além de moda eu dê uma orientação de estilo. Se a pessoa confia no meu trabalho, aceita meus conselhos. Mas não fico em minúcias.

A mulher influencia na decisão do marido?
Sim, a mulher quer sempre mudar, inovar e o homem quer sempre se manter o mesmo. Você não pode brigar com o cliente, até porque no final das contas é ele que está pagando. (risos) Mas a mulher influencia bastante. Se o homem não tem muita certeza, elas nos ajudam a sugerir uma coisa diferente para ele.

Já brigou com cliente?
Não, se algum cliente não gostar da roupa, eu devolvo o dinheiro. Às vezes o cliente imagina uma coisa, mas aí o resultado é outro. Isso aconteceu pouquíssimas vezes, mas é sempre um risco. Acho melhor devolver o dinheiro do que chegar e dizer que a responsabilidade é só dele. Mas cada caso é um caso. Ele pode se arrepender da escolha, e eu acabo fazendo outro terno para ele. Mas são casos raríssimos.

Faz parte da ética do negócio?
Sim. Mas é diferente do alfaiate, porque o alfaiate compra o pano específico para o cliente, que geralmente custa caro, e nem sempre pode arcar com esse custo sem que isso represente uma perda significativa. Aí fica complicado o profissional assumir o prejuízo, ainda mais se não é culpa dele.

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Muitos estudantes vêm chegando ao mundo da moda. Como está acompanhando o crescimento do mercado e dos profissionais?
Eu tenho um problema com isso. Acho que o estudo no Brasil é muito complicado. Eu mesmo penso um dia montar uma faculdade de moda. O que enxergo é que nenhum curso dá preparação para o profissional atuar no mercado. Ele não tem vivência do dia-a-dia. O único curso que te dá isso é o de medicina. Nenhum jornalista sai jornalista da faculdade. Nem advogado. Sempre falta vivência.

O público jovem consumidor tem o procurado para fazer ternos sob medida?
Sempre atendo jovens, então há muitos que já conhecem meu trabalho. Alguns me pedem ternos mais largos. Aí eu pergunto se ele pretende fazer ginástica de terno. (risos) Mas, no geral, o jovem que compra meus ternos já conhece minhas outras roupas. Gosto de deixar o cara mais elegante, longilíneo, com cara de rico. Isso dá um certo orgulho para a mulher que está do lado dele.

Tem filhos que trabalham com você?
Uma filha trabalha comigo, a mais velha, que tem 31 anos. Ela toca o lançamento da linha feminina. Meu outro filho pensa em trabalhar no setor administrativo. O pequenino parece que já sabe de tudo.

Como é lidar com filhos de idades tão diferentes?
Quando tive meus primeiros filhos, não tinha muito tempo para ficar com eles. Hoje, também sou uma espécie de pai-avô. Avô sempre estraga os netos, então me dou o direito de estragar meu filho mais novo.

Há novos projetos em vista?
Bem, eu estou tocando vários projetos atualmente, e quase não tenho tempo para nada. Preciso pegar um dia da semana para pensar no todo do negócio e reativar meus relacionamentos. Hoje produzo as coleções, sou responsável por 90% de toda a criação e aprovo. Esse é o coração do negócio. Viajo muito para pesquisar e comprar tecidos. Não está fácil.

E as motos?
Até cheguei a correr e curto muito motos do tipo speedo, essas de velocidade. Sou fã do Valentino Rossi, ele está acima da média ainda hoje, depois de tantas vitórias. Anda pra cacete. Mas não sou de ficar assistindo, gosto de fazer. Mas como não tenho tempo, as baterias das motos estão todas arriadas.

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