Diário de um longa

Em texto exclusivo, o consagrado diretor de comerciais e documentários para TV, Otávio Escobar, fala sobre seu longa-metragem de estreia como roteirista e diretor: ‘O Diário do Playboy’, sobre a lépida vida de Jorginho Guinle
Por Otávio Escobar | Fotos: Prodigital e Arquivo Família Guinle

 

Jorginho Guinle e Roman Polanski 01

Jorginho Guinle e Roman Polanski

 

Nos tempos áureos de Jorginho Guinle, se dizia que todo playboy que se prezasse tinha que ter um caderninho de telefones à altura. O dele talvez tenha sido o mais valioso que já se viu.
Nossa história gira em torno deste caderninho e seus personagens, contada em primeira pessoa pelo playboy que colocou o Brasil na rota do jet set internacional.
O roteiro é baseado em entrevistas com amigos íntimos, com os filhos Georgiana e Gabriel, pesquisas históricas, dezenas de entrevistas e depoimentos à imprensa, mas muito também nas próprias memórias de Jorge Guinle, que estão no livro Um Século de Boa Vida, da Editora Globo, com depoimentos do próprio Jorginho ao jornalista Mylton Severiano da Silva.

Aos 88 anos de idade, Jorge Guinle sai do hospital Ipanema sem fazer a operação recomendada pelos médicos, assina um documento se responsabilizando pela própria vida e vai para o Copacabana Palace, o Hotel construído pelo seu tio em 1923 e onde ele havia passado boa parte da vida.
O amigo Mariozinho Oliveira, seu companheiro de muitas farras, disse uma frase interessante: “Sabe aqueles documentários do mundo animal em que o elefante velho, quando sabe que vai morrer, se afasta do grupo e escolhe o próprio cemitério? Você está fazendo o caminho dos elefantes, Jorginho!”
No quarto 502, o espectador acompanha o último dia de vida de Jorge Guinle, quando ele abre o seu caderninho de endereços e os personagens ali por ele anotados ganham vida, deflagrando histórias extraordinárias de glamour e fantasia.

 

Um século de boa vida
Ele foi um dos herdeiros da família mais rica do Brasil na primeira metade do século XX, concessionários do Porto de Santos no período em que o café brasileiro saía por ali e dominava o mercado mundial.
A história do playboy perdulário, portanto, está ligada à nossa história econômica, causando espanto e até admiração pela forma como Jorge Guinle surpreende seus pares da alta sociedade brasileira ao decidir viver na contramão do acúmulo de riquezas, torrando, centavo por centavo, sua parte da fortuna, sem trabalhar (por dinheiro) nem um dia sequer na vida.
As pessoas diziam que ele era da família dona do Copacabana Palace, automaticamente todas as portas se abriam e o caderninho ia ficando repleto de nomes famosos: astros e estrelas de Hollywood, magnatas, socialites, presidentes da República, políticos, músicos extraordinários.
Frequentou festas magníficas em Los Angeles, Nova York e, antes da Segunda Guerra Mundial, boates exóticas de Paris.
Chegou até a ser convidado pelo pessoal do Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo de Getúlio Vargas para ser uma espécie de embaixador extraoficial do Brasil nos Estados Unidos. Foi amigo íntimo de Nelson Rockefeller, que arranjou para ele a função de consultor de Hollywood para assuntos sul americanos que, se não parecia muito, dava passe livre aos estúdios e bastidores das filmagens.
Foi assim que Jorge Guinle conheceu e teve as mulheres mais desejáveis do seu tempo. A lista no caderninho impressiona: Ava Gardner, Anita Ekberg, Rita Hayworth, Jayne Mansfield, Romi Schneider, Maria Montez e por aí vai, sem falar da tarde que passou com Marilyn Monroe num quarto da casa do milionário Howard Hughes em Los Angeles.
Viveu nos hotéis mais luxuosos do mundo e presenteou suas mulheres com jóias caríssimas. Trouxe a maioria delas para o carnaval do Copa e, de tabela, contribuiu muito para imagem internacional do Rio de Janeiro, numa época em que as pessoas ainda pensavam que a capital do Brasil era Buenos Aires.
Costumava dizer: “Se a vida é uma viagem, o importante é viajar de primeira classe”. Mas o ocaso do playboy também impressiona, por revelar seu lado hedonista, incapaz de olhar o lado negativo das coisas, mesmo quando esteve completamente na pobreza.

“Você me enganou. Pensei que tinha casado com um milionário”
Em suas memórias, conta que a morte do seu pai em 1969 foi também o fim das suas mesadas. Foi quando, aos 53 anos de idade, viu-se, pela primeira vez, diante de um extrato bancário.
A frase mais famosa de Jorge Guinle é aquela no fim da vida: “pois é, calculei mal. Não esperava viver mais do que a minha herança. Me ferrei”. Outra frase marcante no roteiro foi trazida por um amigo íntimo de Jorginho sobre um diálogo em público com a última mulher:
- Você me enganou! Pensei que havia casado com um milionário…. e você é pobre, Jorginho!

Bronca de Santos Dummont por pisar na cauda do Demoiselle
Jorginho, segundo seu filho Gabriel, tinha uma expressão para as coisas que gostava: “Formidável!!”
Acho que o Diário do Playboy tem tudo para ser formidável porque a equipe na frente e atrás das câmeras é de primeira. Depois de 30 anos no mercado profissional, decidi sair para a realização do meu primeiro longa amparado por grandes nomes. A produção é uma parceria da Prodigital Cinema e Apoio Rio, com Tuinho Schwartz e Marilene Andrade como produtores executivos.
Marcos Flaksman será o diretor de arte.
No nosso segundo encontro, Marcos falou sobre a construção de uma réplica do Demoiselle, de Santos Dumont, para uma passagem curiosa da vida do menino Jorginho Guinle em Paris. Sem querer, o pai de Jorginho enfia o pé na cauda de seda finíssima do avião e Santos Dumont fica uma fera. A questão era quem de nós dois guardaria a réplica como souvenir. Vou deixar para o Marcos, porque acho pouco diante da contribuição que ele vai dar ao filme com o seu talento.
Como Jorge Guinle era um apaixonado e conhecedor profundo de jazz, convidamos um grande músico para a direção musical, o maestro Guto Graça Mello. A direção de fotografia é de Nonato Estrela.
O Diário do Playboy tem uma estética graciosa e sofisticada como a personalidade de Jorginho, cheio de humor fino mesmo na fase em que o playboy entra em falência. Daí a importância de uma fotografia de padrão mundial. Já trabalhei com Nonato dezenas de vezes dirigindo comerciais e programas de TV. O elenco vêm sendo cuidadosamente montado pelo experiente Milton Campos, que tem a sua carreira profissional ligada aos bastidores da TV Rede Globo.
Para representar Jorge Guinle, convidamos Bruno Gagliasso. O Bruno adorou a ideia de ser o nosso playboy e, neste momento, está lendo o roteiro e afinando os últimos detalhes. Outra adesão importante é a da atriz Guilhermina Guinle. No filme, ela vai representar a sua bisavó, viúva do patriarca Eduardo Guinle. E que também se chamava Guilhermina.

[Leia a entrevista 'O poeta e o playboy']

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