Lobão

Lobão 2 - crédito Rui Mendes

João Luiz Woerdenbag Filho, mais conhecido por Lobão, faz revelações que não estão no gibi (nem em seus livros), em uma entrevista histórica, onde não poupa até o Rei. Prepare-se para a metralhadora giratória!
[Por Alex Solnik e Camilla Schahin | Fotos Rui Mendes e Egberto Nogueira]

 

Lobão - crédito Rui Mendes   Lobão 1 - crédito Rui Mendes   Lobão 3 - crédito Rui Mendes

Às seis da tarde do dia 17 de dezembro de 1989 – data do segundo turno das primeiras eleições presidenciais no Brasil desde 1964 – Lobão entrou no palco do programa Domingão do Faustão, transmitido ao vivo pela Rede Globo para todo o país. Logo depois de ser apresentado com a pompa habitual pelo animador, ele abriu o seu sobretudo. A camiseta estava lotada de buttons de Lula. Ele começou a cantar o jingle do petista, que disputava a preferência com Fernando Collor: “Olé, olá/ Lula, Lula…”. A plateia cantou junto. Faustão entrou em pânico, soprou no seu ouvido: “Bicho, pára com isso, isso é crime eleitoral, ainda tem eleição em muitos lugares do Brasil. A emissora pode sair do ar.” Lobão parou, mas o mal estava feito. O número 1 da Globo, Roberto Marinho telefonou para o pai do Lobão, de quem era amigo: “Eu compreendo que os filhos não saem aos pais. Mas queria lhe dizer que o seu filho não poderá nem passar na calçada da Globo pelos próximos anos.”

 

O Lobão que encontramos numa padaria chique da Vila Madalena, em São Paulo, em maio de 2013 é outro cara. Veste bermuda e camiseta, está relax. As funcionárias o reconhecem, ele as atende com simpatia. Escolhemos um canto no mezzanino para conversar. Lobão esbanja alegria. Seu segundo livro, “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”, já é um sucesso. O primeiro, “50 anos a mil”, em parceria com Claudio Tognoli, bateu em 150 mil exemplares vendidos. Mas não é verdade que ele tenha trocado a música pela literatura. Lobão continua a mil.

 

ALEX Parabéns pelo segundo livro, é muito bom!
Obrigado, você é a primeira pessoa que fala comigo depois de ler. Fui convidado agora para as páginas amarelas da Veja. Falei: que legal. Tô há duas semanas conversando com o cara e o cara me telefona: “mas você falou o quê sobre o negocio dos Racionais MC…?” Eu digo: “no primeiro capítulo tem”. “Mas eu estou com o PDF e não acho.” “Você quer que eu dê outra declaração sobre aquilo que está no livro?” Aí dá um certo cansaço. Eu vi críticas em que o cara escreve: “o Nada… porque o Nada invalida tudo.” Outro falou que o livro não passa de um panfleto. Que é uma coisa rasteira.

CAMILLA Teu livro é como Minutos de Sabedoria: eu abro em qualquer página e rio, tem tiradas geniais. Tipo chamar a Comissão da Verdade de “Omissão da Verdade”, e a nossa “Presidenta” de Governanta! Hilário.
Pela lógica, se você vai chamar a presidente de presidenta, vou chamar o governante de governanta. Mas eu me esculhambo também: eu sou uma anta política!

CAMILLA A anta é um bicho inteligente. Ela é discriminada, mas é inteligente.
ALEX O livro é muito bem escrito… o poema de abertura é ótimo. No Brasil, tem gente que pode falar de qualquer coisa e gente que não pode falar de nada, entendem alguns.
Os caras caíram numa armadilha… porque eu sou o Nada. Todo capítulo eu digo: sempre haverá alguém perguntando “quem é você? Eu sou o Nada! Todo capítulo eu termino dizendo: vão perguntar: quem é você pra dizer isso?! Então, eles caíram na minha armadilha… Eu estou fazendo, sob medida, uma carapuça customizada. O mais maquiavélico no livro é enredar todas essas reações e o texto já prevê essas reações, o próprio título… Eu vou pedir uma coisinha para comer. Um vinho branco. E cogumelos com pasta de alcachofra.

ALEX Estranho isso.
Por isso mesmo eu pedi.

CAMILLA Você virou paulistano de vez? Por que deixou o Rio?
Eu achava constrangedor ver carioca aplaudindo o pôr-do-sol.

ALEX Escuta, por que o “Sacarolha” (programa do Canal 21 de São Paulo, apresentado por Lobão, Marcelo Tas e Mariana Weickert) acabou?
Porque o filho do Lula comprou o canal para a Gamecorp e cortou o programa. E o programa estava indo muito bem. Foi uma ótima experiência para mim, mas eu tenho outras coisas pra fazer. Fui pra MTV também, me enredei com televisão, participei de “A Liga”. Mas estou bem assim. Só pude escrever o livro porque eu saí da “A Liga”, quando saí da “A Liga” terminei meu disco, o Lino, Sexy & Brutal. E agora estou compondo.

ALEX Você é o primeiro cara que dá um tranco pra valer na Semana de Arte de 22, no Oswald. Eu sempre achei esquisito esse negócio de Movimento Antropofágico… comer uns aos outros…
Ao ler textos sobre a Semana percebi que as críticas eram esporádicas, eventuais… o Graciliano Ramos falou alguma coisa… mas sempre à esquerda da esquerda… Tipo assim: eles são burgueses demais… Não é isso, tá errado… esse nacionalismo…

ALEX O pai do Oswald era dono de uma chácara que ia da Avenida Paulista até a Estados Unidos e da Augusta até a Cardeal Arcoverde…
Isso não vem ao caso. O problema é que ele pensa errado. Ele pensa muito errado, em termos filosóficos, conceituais. Eu percebi que todos os movimentos subsequentes estão de alguma forma ligados à Semana de 22: o concretismo… a tropicália… o cinema novo… o Centro de Cultura Popular da UNE que inventou a MPB. A Semana de 22 foi regurgitada. Para usar uma metáfora digestiva. Mas assim: na verdade, a parte popular dela, ela foi toda escondida por intelectuais de esquerda. O ISEB querendo fazer a coisa da cultura… o Edu Lobo faz música popular? O Chico Buarque faz música popular? Não é popular! Popular é Odair José, é Waldick Soriano… Tem esse filtro dos intelectuais de esquerda querendo dar uma qualidade ao populacho. Isso é muito escroto! Então, essa é, mais ou menos, a visão do livro. O Oswald era um cara que vinha atrás e o Mário de Andrade ia na frente… O Mário de Andrade escreve Macunaíma e aí sacraliza os conceitos do mau-caratismo. No livro do Mário é uma troça, mas quando o Joaquim Pedro de Andrade fez o filme, o transformou em herói mesmo. A leitura era: nós temos que ser isso. O Mario foi mal interpretado. Ele fez um discurso em 1954 dizendo “vocês me levaram muito a sério…” O meu livro tem esse viés. Ninguém falou nada sobre isso até agora. O universo do livro é baseado nesse viés. O resto são elucidações de como nos contaminamos através desse caminho. Deram na imprensa que eu saí atacando todo mundo…

ALEX O conteúdo do livro não corresponde ao que foi publicado a respeito dele…
Se a gente fala da semana de 22 do jeito que eu estou falando, fica muito claro que ela é o alicerce de tudo o que aconteceu na cultura brasileira desde então. Não houve contestação nenhuma a isso.

ALEX A maioria das pessoas nem sabe o que foi a semana de 22…
Mas não é isso! Isso não interessa! Porque o cara é mau-caráter sem saber. Nós estamos à mercê dos intelectuais de esquerda! Nós estamos vivendo uma ditadura brutal! O que parece que eu ataco todo mundo é que eu pego na verdade uma coisa: eu dou um tiro no alicerce. Cai tudo!

CAMILLA E quando você virou Lobão?
Eu entrei no São Vicente de Paula, era o primeiro ano que eu repetia, eu estava muito desanimado, não tinha curiosidade nenhuma, eu ia lá para me socializar, jogar uma bola, ver as meninas, e querer fazer uma banda com alguém. Eu duvidava de tudo. O colégio era legal, tinha ciclo de cinema, de Buñuel, Fellini. Um cara de direita, meu amigo, o Inácio, acabou sendo meu anjo da guarda. Ele era presidente do grêmio, mas trazia Gonzaguinha, fazia peças proibidas do Chico… Calabar… A gente via tudo… Buñuel… A gente via com certa distância. A gente detestava a esquerda. Eu queria fazer rock. Não deixavam. Então, eu entrei num cenário assim. Eu detestava… eu sou um cara muito conservador e eu sempre queria ter uniforme. Eles tinham acabado de inventar que não precisava de uniforme. Eu falei: que merda! Não gosto de ficar mostrando roupa. Inventei um uniforme, que era um macacão.

ALEX Uma jardineira?
… A minha avó comprava as coisas, eu estava em fase de crescimento, então ela deve ter comprado aquilo quando eu tinha onze anos, comprou já pra vida toda, de ano em ano ela só ia ajustando o macacão. Então o macacão já estava caindo aos pedaços, eu já estava com 15, 16 anos, só tinha uma alça.

CAMILLA Aí você lançou a moda de uma alça só?
Eu usava aquilo caindo aos pedaços e aí os caras falavam: parece o lobo mau, hein!

ALEX Quem falou? Aquele teu amigo de direita?
Não. Na verdade, como eu era um cara novo no colégio, começaram a querer colar apelidos. A primeira coisa: o que você vai ser quando crescer? Eu falei: vou querer ser músico. E aí tentaram colar em mim o apelido de Beethoven. Passaram um mês me chamando de Beethoven. Não colou. Eu sou muito metódico. Eu comia dois queijos quentes, dois mates e um mentex. Dois queijos e dois mates porque eu tenho pavor das pessoas pedirem: “me dá um tasco?”. Então comprava dois, pra oferecer um pra quem quisesse, colocava na mesa de pingpong… come isso aqui porque eu não quero saliva, detesto trocar meus fluidos corporais com os seus. Essa pequena característica foi se acentuando até a hora do Lobão. Antes foi Mentex. Depois do Beethoven foi Mentex. Aí, Mentex! Mentex também não colou. Quando me viram na hora do recreio com dois queijos quentes, uma coisa protuberante, com aquele negócio… “Parece o lobo mau!” Ô, Lobo Mau! Aí começou Lobo Mau, Lobo Mau. Esse cara, o meu amigo, o anjo da guarda… eu ia virar um delinquente… porque eu pensei em ser maestro, mas eu não sabia ler música e me recusava a aprender, então, tirava concertos inteiros de Villalobos até o dia em que o cara viu que eu não lia, tocava de ouvido, aí trocou as páginas todas e eu continuei tocando a mesma coisa.

CAMILLA Você levava jeito pra matemática? Porque quem leva jeito pra música leva jeito pra matemática…
Olha, eu tinha um raciocínio matemático bom, mas uma péssima caligrafia, então quando fazia as expressões, o 2 virava 5, o 5 virava 8, os resultados não batiam. Até hoje tem coisas que eu escrevo e depois não decifro. Isso em virtude de um trauma que eu tive quando criança, a minha mãe queria me ensinar caligrafia… minha mãe era superprotetora, eu queria mostrar serviço, ficava lá estudando caligrafia, e ela “não, senhor, você não pode fazer caligrafia enquanto eu não te ensinar” e aí ela pegava minha mão, eu ficava puto com aquilo e aquilo deve ter dado um tilt na minha cabeça e eu nunca mais escrevi direito.

ALEX Você já era Lobão antes de tocar então?
Não, eu era músico desde os três anos de idade. Eu toco bateria desde os três anos. E comecei a tocar violão a partir dos seis.

CAMILLA Você tinha uma bateria em casa?
Não, meu primo tinha uma bateria. Meu avô era holandês. Ele construiu um sítio enorme. Fez o primeiro boliche da América do Sul. Enorme, bárbaro, pé direito enorme… Tinha sinuca, ping-pong. E eu muito pequenininho, era 1961, 62. Meu primo era mais velho dez anos, eu tinha três, ele tinha 13. No aniversário dele, ele ganhou uma bateria. Eu não sabia que era uma bateria. Mas como lá no boliche tinha chope, eu via uns barris de chope enormes que meu avô levava. E o carnaval no meu sítio era mais uma festa alemã. Monte de gente, tudo suíço, pra jogar boliche. Então, o carnaval era uma chopada, mais de 300 pessoas… lauto banquete. E eu estou lá, vejo aqueles barris… De repente, meu primo ganha uma bateria, mas na minha cabeça eu não sabia, eu sou muito pequeno, eu vejo ele e os amigos dele levando uns barris, na minha cabeça. Eu fui lá ver. Estavam montando a bateria dele. “Que legal!” Eu lembro que eles puseram uma marchinha de carnaval que eu adorava: vem cá seu guarda/ bota pra fora esse moço/ que está no salão brincando/ com pó de mico no bolso… foi ele/ foi ele sim/ foi ele que jogou o pó “ni mim”. Eu adorava aquela música! Falei: deixa eu tocar essa música? Aí sentei na bateria e toquei a marchinha. “Olha, ele está tocando com bumbo!” Toquei com coordenação perfeita.

ALEX Bateria ou você nasce sabendo ou não aprende…
Eles me elogiaram, eu fiquei inflado. “Eu toco muito.” Eu sou obsessivo. Comecei a tocar e minha avó me deu duas baquetas. Aí eu chegava em casa, pegava travesseiro, caixa de sapato e ficava tocando. Comecei a ter aulas de bateria mesmo sem ter bateria. Mas eu não queria aprender. O professor era um ceguinho. Rock balada, ele comandava. Eu queria tocar Rolling Stones, era 1963, 64… Em 1966 eu ganhei minha primeira bateria. Em 1965, eu tinha sete anos. Aí, pronto. Era igualzinha à bateria do meu primo, só que de madrepérola azul. Linda. Aí eu ia pra casa da minha outra avó, em Ipanema…

CAMILLA Você teve estímulo, né? Pais liberais…
Meu pai falou assim: tudo bem tocar bateria, mas aqui em casa não! Mas minha mãe tocava violão… Meus pais eram campeões de kart. Eu achava meus pais o máximo, porque eles saiam nas revistas – o casal kart. Os dois se beijando. Ela campeã brasileira feminina, ele campeão brasileiro masculino. Os dois eram muito inteligentes… O pai do meu pai era engenheiro mecânico, ele tinha uma oficina. Ele veio ao Brasil pela Siemens pra fazer todo o sistema hidráulico de Niterói, em 1920. Conheceu minha avó e ficou. Depois decidiu fazer uma oficina mecânica, mas só de carro de magnata. Virou representante vitalício da Rolls-Royce para a América Latina. Só ele podia mexer em Rolls-Royce. Vinham caras do México…

CAMILLA Representante vitalício?
É. Representante vitalício da Rolls-Royce. Eu ia pro colégio… meu pai sempre estava com um carro diferente… eu ia no Rolls-Royce dos Peixoto de Castro… Altos carros. A oficina ficava dentro da casa do meu avô, uma casa antiquíssima, do século 19, um palacete herdado pela minha avó, lá no centro do Rio. Um quarteirão inteiro. Tinha mangueira, misturado com carro, graxa, estopa… porões. Era um mundo espetacular! Então, eu virei um parque de diversões de mim mesmo. Porque eu tinha muitos amigos, mas entrava nesses lugares e ficava viajandão! Carnaval… carnaval no meu sítio… eu pedia pra minha mãe comprar uma fantasia de índio. Eu me fantasiava e ia pro pomar do meu avô. Fingia que estava caçando. Eu não ia pro baile. Eu detestava baile. Eu só queria a fantasia pra poder viajar na minha maionese. Quando eu ia pras festinhas, eu era um cara muito tímido… eu adotava o seguinte: eu levava minha bateria…

CAMILLA E continua tímido?
Continuo tímido… Eu ficava do lado da vitrola, colocava minha bateria… eu morria de vergonha de pedir uma menina pra dançar com ela…”quer dançar comigo?”… Eu ficava tocando a festa toda.

ALEX Pior era perguntar “você quer namorar comigo?”
Isso aconteceu muito tarde pra mim. Nunca conseguia. Então, voltando ao negócio do Lobão, eu tinha essa formação toda…

ALEX Então foi na escola que o Lobão pegou?
O Lobão vai pegar agora, quer ver? Lobo Mau, Lobão, Mentex, ficou nessa coisa. Uma hora, esse cara, o Inácio, o presidente do grêmio, grande amigo meu, ele ficava puto, porque a uma certa altura eu guardei a bateria e falei: não quero mais tocar bateria, eu quero ser maestro, vou estudar violão clássico. Esqueci a bateria. Desmontei. Já era uma outra bateria, modelo Ringo Starr. O Inácio adorava rock progressivo; eu só ouvia Villalobos, Bach, Stravinsky. Eu era muito pernóstico… eu estava doido pra ouvir rock, mas no máximo me permitia Milton Nascimento… E ele vinha sempre com um disco: Van der Graaf Generator… bandas progressivas… “você tem que ouvir isso”. Teve uma vez que ele conseguiu me levar pra ver uma banda brasileira que estava arrebentando chamada Vímana. Eu pensei… eu sou fã do Nacional Kid. Vímana no Nacional Kid era um vilão supertrash… a gente gostava de tão ruim que era. Eu pensei que Vímana era uma banda de paródias… Mas era uma banda que tinha um outro cara que era do Módulo 1000, o Luis Paulo Simas, o Lulu Santos e o Candinho na bateria… quando eu ouvi fiquei impressionado. Boa pra caralho! Mas não dei muita pala. Legal, mas não gosto mais de rock, não quero ouvir rock. Isso é para o populacho. Me fiz de rogado. Aí ele se encontrou uns dois, três meses depois com Lulu Santos na Modern Sounds que era um lugar onde eu ia, eu aprendi música na Modern Sounds, eu comprava com dinheiro do meu trabalho – trabalhava na oficina do meu pai, de contínuo e jogava no bicho pra ver se eu conseguia uma grana pra comprar meus discos. Fui fazendo minha discoteca na Modern Sounds. A Modern Sounds acabou agora. O Inácio encontra o Lulu Santos, que era o cantor da Vímana. “Pô, Lulu, gosto muito de você, o Vímana é maravilhoso, como é que tá o Vímana?” Ele falou: “agora nós estamos meio parados porque o baterista saiu. O Candinho.” O Inácio disse: “eu tenho um cara que toca muita bateria.” “Qual o nome dele?” “Lobão.” “Lobão? Gostei desse nome. Chame ele.” Eles estavam no Teatro Casa Grande tocando com a Marília Pêra. “Chama ele pra vir tocar com a gente.” Só que eu era dez anos mais novo que eles. Eu com 16, eles 26. Eu não queria tocar em banda de rock. Só que também estava numa encruzilhada. Eu queria ser maestro, mas minha formação era pífia. Eu não sabia ler. Sabia tocar violão com uma certa habilidade, mas eu tocava de ouvido. O Inácio falou: “arruma sua bateria que você vai tocar.” “Eu não vou, não.” “Vai lá, cara, faz uma social, há quanto tempo você não toca bateria?” Fazia um ano que eu não tocava bateria. Sabe o que ele fez? Pegou um táxi, botou minha bateria lá dentro, o táxi foi pro Casa Grande, ele montou a bateria toda e falou: “agora você não tem desculpa, a tua bateria já está lá, agora você vai ter que ir comigo.” Ele me levou lá. Eu cheguei lá, só de sacanagem, eu toco uma levada de samba na bateria que parece uma escola de samba inteira. Eu falei: esses caras gostam de rock, eu vou tocar um samba. Só que os caras adoraram, começaram a tocar junto comigo, equipamento fodido, começaram a fazer umas coisas com sintetizador, com guitarra, ficamos quatro horas tocando, levando a maior sonzeira. O rock progressivo exigia muito virtuosismo das pessoas. Depois das quatro horas tocando o Lulu falou pro Inácio: nós queremos esse cavalo holandês. Aí o Lobão entrou. Eu virei Lobão aí. Aí eles queriam me mostrar pro pessoal dos Mutantes… Eu virei mascote. Um garoto de dezesseis anos que tocava feito gente grande…

ALEX Você entrou por cima, então?
Eu entrei numa banda fodona, de primeira linha, a gente gravou um disco… Sabe o Yes, a maior banda do mundo? O Patrick Moraz, do Yes, foi ver um show nosso e falou: “eu quero entrar na banda de vocês.” E aí? O cara substituiu o Rick Wakeman. Ele se casou com uma brasileira e aí, cara, a gente começou a tocar juntos. A gente passou um ano tocando. Vinham vários empresários, do Led Zeppelin, desse porte pra ver a gente. A parada era ir pra Suíça, gravar um disco lá, sair em turnê mundial pra brigar com Emerson, Lake & Palmer, Yes, não sei que. O Ritchie era da banda e cantava em inglês. A gente estava com tudo certo e a banda era boa pra caralho mesmo e eu tocava violão igual ao cara do Yes. Eles tinham um duo dentro do Vímana que era eu e o baixista que era chamado Duo Deno.

CAMILLA Que ótimo!
A gente tocava choro, tudo. Eu entrei na banda com medo de sexo, drogas e rock’n’roll. Era virgem, né? Eu só perdi a minha virgindade no Dia do Soldado. Dois meses antes de fazer dezoito anos. “Não posso fazer dezoito anos sem não estar virgem.” Aí eu fui pra Casa Rosada ali na Rua Alice e perdi a virgindade. Mas a banda parecia um monastério. A gente ensaiava oito horas por dia.

ALEX Vocês saíram nessa turnê mundial?
Não, porque aconteceram duas coisas importantes que acabaram com a banda. A primeira é que eu casei com a mulher do Patrick.

ALEX Como foi isso?
Ela era doze anos mais velha que eu. Fiquei em cárcere privado depois, quatro anos. Ela tinha três filhos. Ela estava grávida, Patrick tinha mais outros dois. É uma história muito complicada. Mas a gente ficou ensaiando, cara, ela era uma mulher linda, top model. Eu fiquei apaixonado por ela. Eu recém… eu nunca tinha namorado praticamente. A história é muito comprida. Eu estava meio enrabichado com a Liane, o Patrick teve que viajar pra renovar o visto lá fora. Quando ele volta, eu já estou namorando com a Liane, já pronto pra dizer: acabou a banda. Mas ele veio com um monte de discos, foi a semana em que estourou o punk, em 1975, o Clash, o Sex Pistols, Elvis Costello. Ele falou: “it’s over.” O rock progressivo foi enterrado naquela semana. Nunca mais eles se recuperaram. E essa era a minha geração que era a geração punk. Eu falei: “haha, se foderam!” Eu não, né? E aí eu comecei a ouvir muito, principalmente Elvis Costello, que era um grande músico. The Clash era bacana. Os caras que começaram a gostar de punk tocavam com dois acordes, mas eu já tinha um background todo, não tinha saco pra ouvir ‘God Save the Queen’…

ALEX E o Patrick, ficou normal?
Não, ele não ficou normal, ficou muito abalado, pegou a mala dele e foi embora. E eu fiquei morando na casa dele quatro anos. Foi horrível, foi horrível. Uma experiência… eu acabei criando três crianças. Quer dizer, três crianças… a diferença de idade entre eu e minha enteada Adriana era mais próxima que entre eu e a mãe dela. Eu tinha dezoito, ela tinha nove. E a minha mulher tinha 32. E aí foi uma aventura. Uma aventura muito louca e muito sofrida. Muito intensa também. Ela tinha muito ciúme de mim, eu não podia fazer nada, ela não me deixava trabalhar e eu tinha de viver da mesada do Patrick, que era uma humilhação terrível. Eu tentei me matar, eu não sabia mais o que fazer. Porque eu ia tocar com o Luiz Melodia, ela dizia: eu quero suíte presidencial… “Você não está mais no Yes, eu tenho que tocar…” Ela não deixava, tinha ciúmes. Aí eu fui fazer uma power trip com Arnaldo Batista. Eu tentando trabalhar, e ela não deixa, e eu garoto, não sabia o que fazer… eu tinha sido expulso de casa, então não tinha pra onde ir…

ALEX Aí você já conhecia o Cazuza?
Não, o Cazuza só fui conhecer dez anos depois disso. Aí é 1977… 78… Eu era o terceiro marido dela. Não, eu era o quarto. Ela casou com Simon Kirke que era do Free e do Bad Company. Ela era uma groupie de pop star.

CAMILLA Era uma headhunter.
Exatamente. Uma headhunter. Ela conhecia todo mundo lá de fora. Ela era uma pessoa do jet set internacional. Por exemplo. No meio dessas o John Lennon morre… ela telefona, é o Andy Newmark, que tocou com Patrick Moraz, e que era o baterista do John Lennon. “Liane, eu estou muito deprimido, eu vou gravar com a Elis Regina, eu podia ficar aí?” Aí ficou seis meses lá em casa. Chegou deprimidíssimo. Ele falava: “Lobão, eu não sou o melhor baterista do mundo; eu sou o baterista mais bem pago do mundo!” Ele era o cara. A gente ligava o rádio e ele: “that’s me!” Era Carly Simon.. era Keith Richards… Aí, toda hora no telefone… “George, it’s impossible George, I’m so depressed…” Era George Harrison. Ele era convidado pra mil gravações. Ele dormiu no estúdio, na cama do lado da minha bateria. Não tocou na bateria. Passou seis meses lá. Um dia vou tocar com a Marina, eu estava ensaiando uma parte, porque eu não tinha gravado o disco, eu falei “ô Andy, tem uma virada aqui e não estou muito certo a respeito dela.” Ele me ensinou uma coisa maravilhosa, falou assim: “uma vez eu fui tocar ao vivo com a Rickie Lee Jones, uma puta compositora, era uma coisa ao vivo e a música começava com uma virada enorme. Sabe o que eu fiz? Dividi tudo por dois. Sabe por que? Porque convicção não tem percentual. Um cara 99% convicto é um vacilão! Ou você tem 100% de convicção ou não tem nenhuma.” Essa convicção é derivada do instinto assassino, “killer instinct”. Ele me mostrou uma caixa de bateria. Era branca, branca, branca. Só tinha um ponto. “That’s the point!” Eu só toco nesse ponto. Ele acabou namorando a Danuza Leão aqui. Foi maravilhoso. Toquei muito com ele. Ele foi um dos primeiros bateristas brancos a tocar música negra. Ele é uma celebridade mundial.

CAMILLA Você é um roqueiro convicto?
Eu lancei agora o “Lino, Sexy & Brutal”. Eu comecei a tocar guitarra nos anos 90. Eu virei músico, não gostava de cantar… quando eu virei cantor de frente, eu nunca tinha tocado guitarra nem cantado na minha vida. Eu achava um saco! Passei uns dez anos da minha carreira, quinze, achando um saco aquilo. Revoltado. Foi Marina que me inventou como cantor. Eu era baterista da Marina, queria continuar baterista da Marina pelo resto da vida. Eu era apaixonado por ela! Eu me senti dispensado por ela quando ela me inventou como cantor.

ALEX Linda…
Eu comecei a aprender guitarra no final dos anos 90. Em 90 eu voltei a ter um surto de violão clássico e aí aprendi a escrever, de 91 a 95. Mas aí eu pensei: vou tocar clássico aonde? Era uma coisa pra meu deleite pessoal e por causa da fisioterapia… eu tive um acidente de moto, e perdi o pinçador. Aí comecei a inventar sinapses pra dar ordens pra outros músculos da minha cadeia muscular.

#3 crédito Rui Mendes

CAMILLA Você poderia trocar figurinhas com o João Carlos Martins!
Mas o que aconteceu? Eu estudava 14, 16 horas de violão… eu conseguia suportar a fisioterapia porque eu estudava violão… eu tocava escalas… ficava tocando Paco de Lucia já! No final dos anos 90 eu precisava de um power trio! Não tinha grana, precisava virar guitarrista, montar com guitarra, baixo e bateria uma banda portátil. Preciso aprender. Botei os pedais. Comecei a tirar som. Guitarra é muito difícil. É como pilotar uma Ferrari: você não pode andar em marcha lenta. É um som alto pra caralho, você tem que saber tirar aquele som. É um outro instrumento, não tem nada a ver com violão. E aí eu comecei a ler manual. Nunca tinha lido manual. Comecei a comprar equipamentos. Um monte de pedais. Tem uma porrada de efeitos, guitarra limpa, guitarra suja. Tem mil recursos. “Que legal” pilotar aquilo. Eu levava jeito pro negócio. Comecei a tocar bem, porque eu sou baterista, então eu canto e toco com muita rapidez, aciono os pedais. Aquilo me ajudou. “Agora tenho que aprender a gravar sozinho.” Comecei a tocar baixo. Hoje em dia eu gravo todos os instrumentos! Não deixo ninguém… toco todos os instrumentos…

CAMILLA Virou maestro, como queria no colégio?
Exatamente. Faço os arranjos todos. A minha banda quando toca, toca exatamente o meu bpm, o mesmo andamento… eu sou um tirano.

ALEX “Me Chama” é ainda teu maior hit?
Olha, eu tenho vinte do mesmo nível. Tem Noite e Dia, tem Vida Bandida, tem Vida Louca Vida, tem Revanche, Decadance avec elegance, Essa noite não… eu tenho umas vinte! Se eu fosse Lulu Santos eu ia tocar Ray Conniff new wave…

CAMILLA Mas você pode ser Lulu Santos.
Eu não quero isso! Eu virei um músico independente. Eu sabia produzir… virei um empresário… desde a primeira nota até a banca de jornal, eu tenho todos… eu me transformei numa indústria… vendi… eu inventei a numeração, eu vendi mais do que jamais tinha vendido na minha vida! Só a Beth me apoiou na numeração. Todo mundo peidou na farofa. Caetano, Gil… Um vexame.

ALEX O que é a máfia do dendê?
A máfia do dendê é o Caetano, o Gil… o Claudio Tognoli é que inventou esse nome. Ele descobriu uma rede de jornalistas em todo o Brasil que eram colocados e tirados pela máfia do dendê/ Caetano e Gil, Flora e Paulinha Lavigne. Inclusive a máfia do dendê agia contra o Tom Zé, o Macalé… aniquilava pessoas, barrava pessoas. Eu falava com o Cazuza: tem que tirar esses caras daí, rapaz! Esses caras são bundamoles, são tidos como gênios.

ALEX Gênio? “Gosto muito de você, Leãozinho…”
Não, não! Eu não concordo em reduzir o Caetano ao Leãozinho. Ele tem coisas boas, mas ele não é essa Brastemp toda. Ele teve coisas boas… já fui muito influenciado pelo Caetano e pelo Gil… eu achei que virei um compositor “superior” a partir do “Noite”. Falei: eu sei que faço música melhor que esses caras!

ALEX Por que o rock nacional saiu do mainstream no Brasil? A Rede Globo tem alguma coisa a ver com isso?
Não tem nada com a Globo. Sinceramente… Éramos Guilherme Arantes, Julio Barroso, Marina, Lulu Santos, Ritchie. Eu gravei com todos eles.

CAMILLA Você chegou a fazer alguma coisa com o Tim Maia?
O Tim Maia foi meu padrinho de casamento, mas não foi. Mas ele era meu brother. Uma figuraça. Meus amigos estão mortos, cara! Se o Tim Maia estivesse aqui hoje estaria batendo o pau na mesa. Renato Russo também… o Cazuza me defendia muito. Além de serem pessoas que eram muito meus amigos, eram grandes talentos. Julio Barroso… perdemos a Cássia Eller…

ALEX Mas qual foi o papel da Rede Globo nisso? Ela tem o monopólio da cena cultural brasileira.
Não é isso. Sinceramente…

ALEX E as músicas de novela? Não são as que vendem, e que tocam no rádio?
Não é nada disso. O buraco é mais embaixo. Quando a gente entrou, a gente estava com o saco cheio da MPB. Esse papo social… caminhando e cantando… a gente estava com o saco cheio. A gente tocava rock progressivo na Zona Sul do Rio. O Big Boy, um disc jockey da época dizia pra gente: vocês tem que compor como os Beatles: introdução, côro, refrão. Parem de fazer músicas de vinte minutos! Então a gente começou a fazer música mais curta, pop, pra tocar no rádio com o intuito de dizer: eu quero falar sobre amenidades. E o que aconteceu? A gente começou a produzir músicas de alto quilate. Vieram Titãs, Lulu, Marina, Blitz, Gang 90. A indústria absorveu isso… ah, a Blitz, quando veio… a Gang 90… Todo mundo achava que era uma coisa inofensiva. Entretenedora. Tanto é que todos os budgets de discos do rock durante os anos 80 eram de 250 mil dólares. Maria Bethânia custava 1 milhão. Então, nunca houve… Aconteceu o seguinte. A gente de repente virou mainstream. Mainstream de tudo. Tudo estava abaixo da gente. A gente começa a dominar comercialmente as gravadoras e seus diretores, como Sullivan e Massadas, que também eram compositores ficavam loucos porque a gente não gravava músicas deles. A Gal cantava Sullivan e Massadas, eu nunca cantava. Então, era uma subversão na ordem das coisas. Começou a pegar pesado quando essa rapaziada começou a mostrar approachs políticos. Revanche… Vida Bandida… Polícia para quem precisa… Que país é esse? A gente tomou de assalto a inteligentzia brasileira. (Canta) “Brasil… mostra a tua cara!” Aquilo ali… (canta) “Vida, vida, vida, vida louca!” Os donos da inteligentzia se sentiram ameaçadíssimos.

CAMILLA: A máfia do dendê…
A máfia do dendê… Eles foram entrando através dos Paralamas…fizeram parceria com o Gil… O próprio Cazuza entrava nessa e eu dizia: cuidado. Em 1988/89 já começa a haver uma implosão. Na verdade foram vários os fatores. As renovações de contrato a gente pedia como popstar inglês, americano. Tem isso. Tem o poder das gravadoras sobre nós. A gente fazia as capas que queria, gravava as músicas que queria. A inteligentzia começou a olhar com desconfiança. A imprensa… Bizz, não sei quem, nos odiava. Tudo isso contribuiu para em 1989, na época pré-Collor começarem a aflorar surtos de sertanejo… Chitãozinho e Xororó. Começaram a vir coisas como a dizer: “Abafa esses caras, esses caras não podem ficar aí!” A classe também era muito desunida. Os festivais internacionais foram minando nossa credibilidade. Cada vez que tinha um Rock in Rio era um desastre. Era uma humilhação, se não era um desastre. Eles nos davam 10% de som, 10% de luz, 10% do palco e 10% do espaço na mídia. O primeiro Rock in Rio foi horrível. A gente estava super em cima, em 1985, aí veio o Queen, e você fica com aquela cara de bunda… Esses festivais foram péssimos pra gente. Esses fatores todos levaram à derrocada do rock brasileiro. Por exemplo: eu ia pra Mangueira, os caras cantavam Vida Bandida; eu ia pra Amazônia, os caras cantavam Vida Bandida. Eu achava legal por um lado, mas não tá no DNA do brasileiro.

CAMILLA O “Brasil, mostra a sua cara” é letra do Cazuza.
É do Cazuza essa música…

CAMILLA E a Gal gravou…
A Gal assassinou a música!

CAMILLA E foi a música-tema da novela ‘Vale Tudo’ da Globo.
Arranjo cafonérrimo! Cheio de cacoetes. Arranjo dos anos 70. Isso é que é foda. Eu falava: esses caras são uns merdas. E o Cazuza não concordava comigo. Eu falava pro Cazuza: Cazuza, você é tiete de Caetano… você vai morrer e vai acontecer o seguinte: você vai morrer duas vezes. Quem vai escrever o prefácio do teu livro vai ser Caetano. E vai te foder! Ele escreveu: o maior astro do rock, e não o maior astro da música popular brasileira. O Caetano tem essas coisas. Eu dizia: toma cuidado com esses caras! Eles são vampiros. Eles querem o mesmo presente contínuo. Foi o tempo em que eles menos deram palpite na música popular brasileira. Eles voltaram com tudo: Tropicália 2… subscreveram o axé, o pagode… sentaram no colo do Alexandre Pires… veio o axé, veio a Ivete Sangalo. Foi isso o que aconteceu.

CAMILLA O Arnaldo Antunes com os Tribalistas faz parte disso?
O tribalismo é um subproduto do tropicalismo… o Arnaldo Antunes é um cara querido. Ele é um poeta peessedebista: tanto pode ser fulano como pode ser beltrano. Então, ele relativiza tanto… como a tropicália também é “ou não”…

CAMILLA Essa é a máxima da Tropicália…
Então ele é um assecla. Aí vêm os asseclas dos anos 80 que eles pegavam… o Hermano Viana, o Arnaldo Antunes, alguns titânicos. Foi o alicerce para depois pegar a Marisa Monte, Carlinhos Brown. Aí se formou uma nova classe de asseclas da Tropicália. Mas quem foi subscrito, quem virou alguém coincidentemente foram pessoas que beijaram a mão dos tropicalistas.

ALEX Quem são os deprimidos da música brasileira?
A música brasileira é maníacodepressiva!

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ALEX Você rotulou Roberto Carlos de “múmia deprimida”. Por que?
Calma. Não. Não. Eu sou fã do Roberto Carlos. Quando eu falei que ele é uma múmia deprimida… é que agora ele se veste de branco… No tempo da Jovem Guarda ele era uma outra persona, era um roqueiro. É uma brasa, mora! Agora parece um padre. O padre Marcelo Rossi é mais animado. A música dele que era de jovem transviado mudou completamente. Ele virou um ídolo de senhoras. E tem aquela coisa do TOC. Aquela coisa, então, virou uma múmia deprimida! Agora, as pessoas tratam isso… em qualquer bar, qualquer pessoa vai falar isso… vai aparecer o especial de Natal do Roberto Carlos; “puta que pariu, lá vem aquela múmia deprimida!” É uma vinheta. Eu acho assim: atribuem a mim adjetivações que são do inconsciente coletivo. “Roberto Carlos, senta aqui! Tu não é uma múmia deprimida, rapá?” Eu tô falando alguma besteira?

ALEX Você já disse isso pra ele?
Nunca encontrei o Roberto Carlos…

ALEX Ele só sai de casa pro navio e do navio pra casa…
Acho patética essa figura entre o Ray Conniff e o Ramsés III. Qual é, rapá?

CAMILLA Acho que ele privilegiou ficar vivo comercialmente.
Mas olha, nada justifica. Ele é uma múmia deprimida. Ponto. Se ele é bem sucedido comercialmente são outros quinhentos. Mas que ele é uma múmia deprimida, inevitavelmente ele é uma múmia deprimida. Isso não é um xingamento, é um diagnóstico. Você liga a televisão e vê (cantarola “Esse Cara”). Eu faço Rock’n’Roll! Sinta o tônus e a paudurescência da pessoa!

ALEX Milton Nascimento cantando aquela do trigo eu não aguento…
Sacanagem! Música de cachaceiro!

CAMILLA “Me Chama” é uma música de dor de cotovelo? De cachaça?
Não. (canta com tônus: “Onde está você?/ me telefona/ me chama/ me chama/ me chama.”…)

CAMILLA É que eu me lembrei de outras versões.
Ela é reta… a prosódia dela… a melopeia dela é reta… Cho-ve-lá-fora-amor… Se você tirar isso… eu, como poeta, a constatação da dramaticidade: “nem sempre se vê… (imita João Gilberto cantando “Me Chama”) Que merda é essa, amigão? Fez mil floreios e tirou o tônus da música. Pra que esse tipo de virtuosismo canárico? Não vai adiantar porra nenhuma pra ordem dramática da música. Então é isso: no Brasil falta paudurescência.

CAMILLA Isso é verdade…
Não tem paudurescência!

ALEX Então você apoia o Manifesto da Paudurescência e não o do Pau Brasil?
O Manifesto do Pau Duro!

CAMILLA Certo: abaixo o Pau Brasil flácido.
O brasileiro tem uma péssima autoestima e o que acontece? Você fossiliza as suas emoções. A Semana de 22 está mais viva do que nunca agora. Porque (imita Gil falando) “Antropofagia…” Você vê a vida política brasileira, sem nenhum caráter.

ALEX Você entende alguma coisa do que fala o Gil?
Pega o choro e o jazz. O choro é uma máquina do tempo. Por que? Música feita por funcionário público. Se melhorar, estraga. Passam dez, vinte anos você vê um cara tocando choro, você vai se transportar pro Largo do Boticário, num sobrado, paralelepípedo… porque é uma máquina do tempo! O choro não tem a pujança de um jazz. O jazz tem mil variações, o choro não saiu daquilo. Porque ele se sacralizou. A bossa-nova… pa-ra-po-po-po… parece que você está vendo corrida de submarino no Leblon, tá entendendo? Depois de sair do Cine Miramar. Não se pode mexer, porque é uma coisa sacralizada. A própria Semana de Arte Moderna nunca teve uma contestação porque não se pode mexer.

CAMILLA São as tais unanimidades burras…
Não é nem uma unanimidade porque na verdade ela não teve essa difusão pra ser uma unanimidade. São símbolos que entram no imaginário coletivo da pessoa. Outro dia eu li uma crítica sobre Andrea Varejão: “… porque ela antropofagiza…” sabe, tá introjetado no nosso inconsciente… as pessoas falam “macunaímico”… tá introjetado… é o nosso jeitinho… jabá… propina… A permissividade em ser assim, que é um orgulho pela precariedade… você tem orgulho da precariedade… tem orgulho de ser primitivo… o brasileiro se acha um ser eleito, por exemplo, por covardia… se colocar na mesma raia de um inglês, de um americano, o brasileiro é um merda. Mas ele se acha um ungido como orgulho da raça e se acha um ser especial, como se fosse uma categoria de ser humano…

ALEX Esse negócio de “Deus é brasileiro…”
Se um psicanalista pegasse o conceito de antropofagia, que eu acho torpe, covarde, eu vou querer te imitar… a mimese vem de todo o conhecimento humano desde o paleolítico… vou imitar essa pedra, vou desenhar essa pedra… agora aqui eu sou macaquito porque eu vou imitar. “Sou índio, canibal, vou lá e como o inimigo, o bispo Sardinha, fico com a cultura dele, e ganho dele.” Isso tem que ser explicado psicanaliticamente. É um movimento da maior torpeza, isso é um absurdo! É ridículo! Eu esculhambo com Oswald por causa disso! Oswald, tu é um malandro agulha! Quer dar uma espetada e sempre leva no buraco, rapá! Tá entendendo? Neguinho não tem essa parada. Por esses parâmetros, com esse diapasão você não vai crescer nunca. Por isso é a terra do nunca. Por isso eu digo: vamos para o espaço, vamos para a tecnologia… A turma da MPB detesta tecnologia, estúdio… o técnico do estúdio tem um canal placebo para as frescuras dos astros da MPB.

CAMILLA Que ótimo! Canal placebo!
O cara chega, começa a ouvir a música… o técnico pergunta: tá gostando? Tem grave? A voz tá boa? (imita Gilberto Gil). “Tá faltando uma coloração da aura!” O técnico de som quer saber quantos kilohertz você quer, qual a frequência que você quer… e o cara não sabe de nada… e se orgulha de não saber de nada…é um charme… é um “plus”… O cara diz: é um negócio assim, ó. O técnico fica bolado, pega um canal vazio, pega um botão começa a mexer. “Vê se melhora…”. “Ah, eu acho que ainda não tá.” Aí ele mexe um pouco: “E agora?” “Agora eu acho que passou um pouco…. não mexe, não mexe… agora chegou na coloração da aura!” E a cultura nossa de mixagem é assim: voz na frente… o brasileiro é literário, tem que ter a mensagem da letra, então o cara cuida só da voz, o resto é o resto. As gravações brasileiras são hor-roro-sas em todos os sentidos! A voz na frente e uns cacarecos atrás! (imita Gil e Caetano.) “É legal ser primitivo… é legal ser precário… é muito lindo ser antropofágico.” Nós estamos falando da música. Se botar na política, é a mesma coisa. Se botar na filosofia, na literatura, no dia a dia, na multa, no guarda… é a mesma coisa.

CAMILLA O Brasil sempre foi “o país do futuro”… O futuro ainda não chegou?
O Brasil é o país do nunca! Da impossibilidade total! O Brasil é um pósmorte eterno! É um país natimorto no presente contínuo! Em qualquer lugar do mundo não é bom ser preguiçoso! O Oswald tem um ensaio ridículo sobre a história do mundo dizendo que o homem dos trópicos é privilegiado porque não precisa inventar nada, porque já tem tudo, enquanto o homem do clima temperado fica inventando coisas porque ele precisa se virar, é um ser inferior. “Nós somos abençoados por Deus…” Não precisamos fazer nada. Se piorar, melhora.

ALEX Quando era militante da VPR a Dilma fez uma paródia dessa música que cantou na assembleia clandestina da organização em Teresópolis. A versão dizia “Moro num país tropical/ abençoado por Lênin…”
Tá brincando! Nossa querida Dilma! Compondo paródias…

ALEX Ela era muito bem humorada… Mas “Abençoado por Lênin”… não tem nada a ver.
Claro que tem! Todo cara de esquerda substitui Deus por uma figura divina. Por isso é que Nelson Rodrigues dizia que o ateu é um amputado transcendente. Eu falo que o ateu é um crente do nada porque…

ALEX Você é ateu?
Óbvio que não; eu sou inteligente, como é que vou ser ateu? Há alta possibilidade matemática de Deus existir. Segundo alguns, 99,4% de Ele existir. Seja de que forma for, em vários universos paralelos. Mesmo se tivesse 1% de chance eu não seria ateu. Deus existe! Eu não falo isso. Deus não existe! Eu também não falo isso. Eu não tenho conhecimento suficiente para afirmar.

ALEX Você tem formação religiosa.
Mas não é isso, eu estou falando de uma necessidade filosófica, se eu for no rigor, na Comissão da Verdade de Deus eu não vou dizer que Deus existe ou não existe, agora eu acho ridícula a peremptoriedade com que a pessoa afirma não existir ou existir. Eu acho os dois absurdos. Eu não tenho material suficiente para afirmar isso. Agora, tem uma coisa: eu acho mais poético existir.

CAMILLA Eu acho o budismo uma filosofia interessante.
Eu acho o fim da picada o budismo. O budismo é tipo assim: segura a onda, porque nada existe, tenta não entrar em pânico. No panic. Em suma, o budismo é isso.

CAMILLA Eles não falam em Deus.
Eu estudei a fundo o budismo. É muito árido, é muito terrível. Quando você medita no budismo é você se ensaiar para o nada. É uma negação da vida o budismo. É levar na brincadeira… eles são muito engraçados… eu li o guru do Allen Ginsberg que se jogou, em êxtase, pela janela, ele escreveu um livro chamado “Para além do materialismo espiritual.” A mulher quando vai ficando trintona começa a ficar religiosa. Ou ela vira uma budista ou quando é muito bonita vai perdendo a beleza ela tende a virar a mãe da Branca de Neve. Ela vai ficando perversa. Ou vira uma carola do século 21, que é uma carola new age, que vai entrar num curso de budismo…

ALEX O que você pensa quando liga a televisão e vê aqueles pastores todos?
Eu não vejo. Eu só soube disso, da existência disso quando eu fui pra Transamazônica, toda vez que via um evangélico eles faziam o sinal… eu vi que em todo lugar tinha três coisas: apagão… assembleia de Deus e novela das oito! Em todos os lugares do Brasil! Eu fiquei sabendo que eu estava aparecendo na Record no ‘Fala que eu te escuto’ como a sombra do demônio! Eu e a Rita Lee. Eu vim a saber por causa dessa viagem. Eu achei chiquérrimo! Eu virei um anátema contra a direita e contra os evangélicos! “Lobão reacionário!” “Lobão Satanás!” Legal, eu aterrorizo a rapaziada…

ALEX Você já foi perdoado pela Globo? Saiu da lista negra?
Fui, fui sim. Onze anos depois do “negócio” bati o recorde histórico de audiência do Faustão com “A vida é doce”, em 99 bati o recorde da própria apresentação de 1989. Foi recorde de toda a história do programa. Foi aí que eu vendi 97 mil cópias, porque o meu amigo Faustão falou: já vendeu 50 mil cópias! Não tinha vendido nenhuma.

ALEX Roberto Marinho estava vivo?
Roberto Marinho era amigo do meu avô, da minha família inteira. Meu pai trabalhava com ele. Ele era um amor. Eu pedi desculpas pra ele. Eu apoiei o Lula porque eu não queria o Collor, eu não tinha muito a ver com o PT. Eu achei que foi uma molecagem mesmo. Eu cometi um crime eleitoral, quase fechou a Globo. Ele teve que telefonar pro Sarney, pro Tribunal de Justiça, eles quase perdeu a concessão. Foi uma merda pra ele. Então, eu acho que não foi nada arbitrário. Ele não queria mais ver a minha pessoa!

CAMILLA Tem alguém fazendo boa política no Brasil?
No Brasil todos os partidos são de esquerda. Nós precisamos de um choque de capitalismo. Precisamos de uma Margaret Thatcher! Eu tenho certeza disso. Senão a gente vai se foder. Isso não quer dizer que eu seja a favor de tortura, de ditadura. Ditadura é injustificável! Em dez anos a gente está mais burro do que nunca foi. As universidades estão gerando antas, tadinhas. Nós estamos numa situação muito calamitosa. Desesperadora. Veja a postura da Dilma, toda de vermelho, com o Chavez, apoiando o golpe de estado, apoiando o Irã, tá apoiando a Coreia do Norte, tá apoiando a Venezuela, tá apoiando a Cristina Kirchner. Em 1991 só tinha um país socialista na América Latina, hoje tem 18, todas republiquetas, neo-ditaduras bolivarianas… A popularidade da Dilma está alta. Mas o que é isso? Temos uma das piores educações do mundo. O maior índice de homicídios do mundo. Nossa infraestrutura é uma das piores do mundo. Nossos impostos são os mais altos do mundo.

ALEX Você soube? Foi criada a República Popular do Corinthians. O torcedor pode ser presidente, deputado, embaixador…
Desde 1970 quando o Brasil foi campeão mundial o futebol morreu pra mim. Foi morrendo.

ALEX Vem cá, existe a máfia do dendê. E a máfia das cantoras gay existe?
Tem que tomar muito cuidado. Eu sempre defendi a causa gay, essa é uma coisa. Piso em ovos pra falar esse tipo de coisa. Quotas racistas… você fala que é contra, te chamam de racista. Não, eu acho que a quota racial é racista. Agora, essa coisa da máfia gay é uma realidade. Tem gente que faz questão de proclamar “Eu sou gay”. Tem um público cativo, né? É um reduto, é um segmento de mercado.

ALEX Falando em máfias… Os livros não são numerados…
Eu estou percebendo que a força da máfia das editoras é maior que a das gravadoras. Os caras como Cony, João Ubaldo ganham umas luvas enormes, agora o médio e o pequeno escritor ficam… assim como o médio e o pequeno compositor é que é o roubado pelo ECAD. Isso é uma perversão que não sai dessa coisa macunaímica brasileira. Eu estou na Nova Fronteira que foi do Carlos Lacerda, eu sou primo do Carlos Lacerda, fundador, uma homenagem ao meu primo, tão execrado na história brasileira. O maior governador do estado da Guanabara.

ALEX Você se parece muito com o Angeli.
A idade é um pouco diferente.

ALEX Não, ele tem 55, como você. Você fez alguma coisa no filme do Angeli?
Não, eu ia fazer, mas não fiz. Eu convidei ele pra fazer a capa do meu livro, mas ele falou que não tinha tempo. Também, é um livro muito pessoal eu não devia ter convidado. Mesmo assim ele fez umas vinhetas que abrem os capítulos. Eu compreendo, é um livro que tem essa karma todo em cima. É o primeiro movimento de oposição maiúsculo dos últimos dez anos! Promovido basicamente pelo ódio das pessoas que não querem que as pessoas leiam o livro. Isso é genial! Faz dez anos que não tem ninguém dizendo: que merda! Ontem o Lula falou uma coisa sobre a minha pessoa. “Me chamam de lobista, eu não sou lobista porque eu não sou fã do Lobão.”

CAMILLA E o que você achou dessa?
Sensacional! Quer dizer, já estão preocupados. É bom ficarem. Ele é um cafajeste, uma pessoa execrável. Lobista e Lobão é uma tirada medíocre, horrorosa. Ele é um idiota, não acho nada brilhante. É um farsante, um cafajeste, um cachaceiro. Um canalha, é isso que ele é. Fez muito mal ao Brasil.

Lobao MANIFESTO
Manifesto do Nada na Terra do Nunca
248 páginas – Editora Nova Fronteira