A São Paulo Companhia de Dança é nossa

Uma Lua- Foto Marcela Benvegnu

Uma Lua [Foto Marcela Benvegnu]

São Paulo Companhia de Dança: Formas de ver e de fazer dança contemporânea

Logo no início de Terceiro sinal (Associação Pró-Dança, 2012), terceiro livro elaborado a partir do trabalho da São Paulo Companhia de Dança, a diretora artística e organizadora da edição, Inês Bogéa, reafirma o papel do grupo: “O repertório contempla remontagens de obras clássicas e modernas, além de peças inéditas, criadas especificamente para o seu corpo de bailarinos (…) Cabe salientar que no Brasil não temos tradição de apresentar obras canônicas da dança, como o repertório antológico do século XX, por exemplo. Ao levar estas obras e as criações inéditas para o público das diferentes regiões do país, colocamos em cena um passado que aqui se renova, assim como o presente se faz mais vivo pelo diálogo com o que veio antes. Em especial, as criações desenvolvidas para esse corpo de dança enfrentam o desafio de trabalhar de modo original os temas do nosso próprio tempo, e dão ainda oportunidade ao intérprete de participar do processo de elaboração”.
O programa apresentado recentemente na temporada do Teatro Alfa traz estas características e chama atenção para as escolhas. Lado a lado estão três dos maiores nomes da dança atual, o tcheco Jirí Kylián, o americano William Forsythe, e o brasileiro Rodrigo Pederneiras, em coreografias de domínio técnico e exigência artística, respectivamente, Sechs Tänze (1986), In The Middle, Somewhat Elevated (1985) e Bachiana n°1 (2012). Em comum, as peças alargam o vocabulário da dança clássica e estabelecem intersecções com os corpos contemporâneos. Mais do que isso, evidenciam o caminhar da história da dança e buscam no espectador um olhar agudo para esta conversa entre passado, presente e futuro. “A dança é uma arte que se realiza no encontro entre a plateia e os artistas e esse instante efêmero fica gravado no corpo de cada um.
A cada programa que a SPCD apresenta, procuramos uma pluralidade de estilos para que o público entre em contato com a diversidade do repertório da companhia”, diz Inês, em entrevista à S.A.X.
Pederneiras, coreógrafo do Grupo Corpo, a convite da companhia criou para os bailarinos a peça com música de Villa-Lobos, Bachianas Brasileiras, explorando o refinamento cada vez maior dos corpos destes bailarinos. Em cena, ele usa os registros clássicos sem perder de vista seu modo característico de movimento, em que a música sugere ambientes e desenhos e o corpo carrega a velocidade dos passos e o deslocar dos quadris.
São 16 bailarinos em cena usando o espaço em formações inesperadas, duos, trios, quartetos, conjuntos que se formam e se dissolvem sem previsões, reagindo à música. A sofisticação das passagens pode ser vista, muitas vezes, nos corpos-partituras, quando cada bailarino acompanha um instrumento no palco, para, em seguida, sem aviso visível, cada um se encaixar a novos arranjos, retomando pequenos ou grandes grupos.
Para o público, uma das grandes surpresas é o pas de deux da metade da peça. Dançado por Samuel Kavalerski e Luiza Lopes ou André Grippi e Karina Moreira, ele parece suspender o tempo da plateia. Pederneiras tem grande habilidade ao trabalhar em duos, de sua combinação saem sequências criativas e sensuais. Neste caso não é diferente, em figurinos que lembram peles, a dupla passeia pela música sem que os corpos se separem e, ainda assim, conseguem transitar em todos os pontos do palco. Há momentos de grande delicadeza e outros em que exploram a fisicalidade. “A luz do pas de deux traz um acento particular para a coreografia. Os canhões são colocados dentro da caixa cênica, ora os focos estão separados, ora juntos e isso transforma a atmosfera da cena e potencializa uma só força no corpo dos bailarinos”, explica a diretora.
Da mesma forma de Bachiana n°1, em Sechs Tänze, Jíri Kylián também absorve o vocabulário clássico, mas não se inibe. Esta pequena peça tem treze minutos no total, e coloca em xeque os valores da época da criação da música de Mozart, fins do século XVIII. Também em comum com o coreógrafo brasileiro, Kylián dança literalmente conforme a música. “A música de Mozart foi o principal elemento para a criação de Sechs Tänze. Ele deveria ser engraçado, porque entendia e sabia fazer humor. A música é muito importante em um balé, qualquer que seja ele.
E, nesta montagem, ela é mais rápida do que a dança. Para dançar Sechs Tänze é preciso ser veloz e colocar uma máscara. É como ser e não ser você em determinados momentos. É como ser manipulado hoje, amanhã, ontem. Fingir querer ser. Ou não”, disse o coreógrafo a propósito da peça.
O tom bem humorado da coreografia alfineta os costumes morais e sociais da época do compositor. A poeira das perucas e dos figurinos já indica uma leitura crítica da peça. As seis danças da música revelam, pouco a pouco, as distorções de comportamento, os medos e os exageros dos homens e mulheres.
Mas Kilyán não faz disso um discurso pesado. Sua grande maestria é justamente transformar o tema em uma coreografia em que utiliza as potencialidades do corpo. Ele costuma dizer que o corpo tem mais de duzentas articulações, então, um criador pode ir além dos passos estabelecidos. E ele usa muito do recurso, sem deixar de lado a poesia dos corpos.
Por fim, o programa fecha com Forsythe. Como os outros dois, a conversa entre a tradição e a inovação está presente. É o único, no entanto, a usar sapatilhas de ponta para as mulheres e exigir, mesmo sem ser convencional, piruetas e double tours dos homens. Ele propõe uma tensão. Não apenas pela música que eleva a atenção do público, mas da extensão do corpo. A coreografia, como disse a remontadora da obra para a SPCD, Agnés Noltenius, usa as bordas da técnica clássica para explorar o movimento. Para dançar In The Middle, Somewhat Elevated, os bailarinos precisam de ataque e de força, e ainda entender que os passos surgem, muitas vezes, da extremidade do corpo – a tradição do balé clássico usa o eixo central.
Uma das grandes influências de Forsythe é o russo George Balanchine (1904-1983). Já no início do século XX, Balanchine usou deslocamentos e desequilíbrios do corpo para avançar o balé clássico.
Em In The Middle, Somewhat Elevated, esses recursos dão um passo à frente, ganham acentos mais marcados já no início quando a bailarina em destaque apresenta o tema da coreografia. A partir dela, os outros oito bailarinos desenvolvem variações ao longo de toda a peça. É como se o coreógrafo levasse a experiência de Balanchine ao limite da forma e dos arranjos em cena – o desequilíbrio também se revela nessa combinação.
Para a diretora da companhia, dançar Forsythe representa um momento especial do grupo e mostra o amadurecimento dos bailarinos. As três coreografias formam um programa de qualidade rara e, melhor, não apenas para o Brasil. Em qualquer teatro do mundo, ele teria destaque.

Entre o passado e o futuro
Em outubro, a SPCD estreou em São Paulo outro programa com dois clássicos de repertório, o grand pas de deux de O quebranozes (1892) e o grand pas de deux de Dom Quixote (1869) ambas de Marius Petipa (1818-1910), com remontagem de Tatiana Leskova e
Manoel Francisco, respectivamente. Na mesma noite, o grupo levou ao palco obras de dois contemporâneos: Gnawa (2005), de Nacho Duato, e Supernova (2009), de Marco Goecke.
O exemplo se soma ao programa anterior e delineia o trânsito único da companhia entre os grupos nacionais atualmente. No mesmo mês, a SPCD também mostrou ao público outra frente de trabalho, os Processos Coreográficos, com apresentação de coreografias de três bailarinos de seu elenco, Rafael Gomes, Milton Coatti e Samuel Kavalerski.
O projeto faz parte do Programa de Desenvolvimento das Habilidades Futuras do Artista da Dança, cujo objetivo é dar alternativas de carreira aos artistas da casa depois que deixarem os palcos. “Abrimos espaço para que os bailarinos possam desenvolver outras habilidades profissionais ligadas à área da dança, como ensaiadores, auxiliares de ensaio, professores, fotógrafos, desenhistas, pesquisadores e coreógrafos”, diz Inês.
Em dezembro, outra iniciativa cria uma nova frente de ação.
Será a primeira edição do Ateliê de Coreógrafos Brasileiros, que reunirá no mesmo palco criações de Alex Neoral, Rui Moreira e Jomar Mesquita.
As apresentações aconteceram nos dias 11 e 12, no Teatro Geo, em São Paulo. O programa reafirma o trabalho da SPCD em convidar coreógrafos brasileiros para criar para o grupo – nomes como Daniela Cardin, Paulo Caldas e Maurício de Oliveira, já passaram por lá. “O Ateliê de Coreógrafos reafirma e amplia este trabalho e propõe experimentações de novos olhares e novos gestos, para que a companhia seja ainda mais plural”, finaliza a diretora.

 

Luiza Lopes e Samuel Kavalerski em Bachiana n°1 - Foto Wilian Aguiar

Luiza Lopes e Samuel Kavalerski em Bachiana n°1 [Foto Wilian Aguiar]

Morgana Cappellari em In the Middle, Somewhat Elevated - Foto Silvia Machado

Morgana Cappellari em In the Middle, Somewhat Elevated [Foto Silvia Machado]

Michelle Molina e Lucas Valente em Como Eu, Só - Foto Marcela Benvegnu

Michelle Molina e Lucas Valente em Como Eu, Só [Foto Marcela Benvegnu]

Yoshi Suzuki e Fabiana Ikehara em cena de Sechs Tänze - Foto João Caldas

Yoshi Suzuki e Fabiana Ikehara em cena de Sechs Tänze [Foto João Caldas]

Bubble Heart - Foto Marcela Benvegnu

Bubble Heart [Foto Marcela Benvegnu]

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